Era uma vez… Roque Jacintho

Por Izabel Vitusso


07- 0 roque jacintho3Por detrás de clássicos da literatura espírita, como O lobo mau reencarnado, O grilo perneta, O fujão? há uma história bem maior. Há quarenta anos, o autor Roque Jacintho* publicava seu primeiro livro destinado a crianças. Foram mais de cem obras escritas, resultado da determinação desse escritor que se debruçou sobre a ideia de difundir o conhecimento em linguagem acessível para o público jovem e infantil.
Casada com Roque Jacintho por 52 anos, com quem teve uma filha, dona Maria Dirce Antunes Jacintho é quem nos conta sobre os desafios de uma vida dedicada intensamente à doutrina. Fala também de sua alegria por ter conseguido reativar há dois anos a Editora Luz no Lar, fundada pelo casal junto a outros idealistas, um projeto interrompido desde que o Alzheimer acometera o escritor que veio a desencarnar em 2004, aos 76 anos. “Eu prometi para o Roque que iria continuar a obra. Enquanto eu tiver fôlego, vamos tocando!” – enfatiza dona Dirce ao começar a sua narrativa:
“Ideias esquisitas”
Quando nos conhecemos, ele já dava aulas de português e latim no Colégio Estadual de Sorocaba, cidade onde nascemos. Minha sogra achava Roque diferente dos dez outros filhos. “Não consigo que ele vá à igreja. Tem ideias esquisitas” – dizia. Com onze anos, ele passou a frequentar a União Espírita de Sorocaba e já redigia seu primeiro poema sobre reencarnação.
Ao tornar-se adulto, ninguém mais o segurava na determinação de trabalhar pela divulgação do espiritismo. Com formação em administração, começou a realizar trabalhos de assessoria em rádios, jornais e empresas, dentre elas a Rádio Clube de Bauru [SP], cidade para onde nos mudamos com pouco tempo de casados.
Eu vim de família muito católica, não entendia de doutrina e tinha muito medo. Mas o Roque tinha muita paciência. Fui vendo sua dedicação, seus exemplos, e ele me dizendo: “Vamos visitar os doentes para você ver todo o trabalho do plano espiritual, os benefícios do passe…”
Desafios
Já espírita, meu primeiro passo junto a ele na doutrina foi no Lar Vinha de luz, instituição em Jundiaí [SP] da qual participamos da fundação. Naquele tempo havia muito preconceito, até mesmo protesto da igreja em frente para que fechássemos a casa. A evangelização era o essencial. Grupos de estudos era a linha do Roque. Moramos em São Paulo, onde ajudamos a fundar o Grupo Espírita Fabiano de Cristo, há mais de 30 anos e, em Diadema, há cerca de dez anos, o Núcleo de Estudos Espíritas Amor e Esperança.
07- d. dirce jacintho 2Quem são meus filhos?
Comentei certa vez com ele sobre a ideia de adotarmos uma criança. Ele nunca falava não, mas logo me lembrou: “só não vamos parar com o trabalho.” Tentamos a adoção por três vezes, a última, a Francisquinha, já estava em casa por meses. Mas de repente aparecia um parente distante e a levava embora… Um dia comentamos o fato com Chico, que unindo as nossas mãos disse: “minha filha, vocês têm tarefa com muitos filhos, não só com os de casa”. Aí eu me dediquei mais ainda.
Histórias e livros
Depois que me tornei espírita, a cada cerca de vinte dias íamos até o Chico [Xavier]. Por mais de vinte anos. Ele nos deu muita orientação. Ao Roque dizia sobre o trabalho a ser desenvolvido com a literatura infantil, inclusive com mensagem de Bezerra de Menezes, enfatizando a facilidade que ele tinha de escrever para crianças e que caso ele se interessasse, Monteiro Lobato estava ali se propondo a inspirá-lo. Aí nasceu o primeiro livro da série, O lobo mau reencarnado.
Embora o movimento espírita tivesse dificuldade em aceitar as fábulas [que com licença da fantasia permite que os animais falem, tenham consciência etc], o Roque defendia a ideia de que não havia outro modo de a criança entender melhor o que quer que fosse se não falando em sentido figurado, como do bichinho, da natureza. E a coleção com as fábulas foi ganhando cada vez mais destaque, até que a própria FEB (Federação Espírita Brasileira) o procurou e passou a editar os livros. Ele sempre teve uma personalidade muito forte diante do que tinha como objetivo.
No tempo em que moramos no Rio de Janeiro, Roque trabalhou muitos anos com a FEB para restabelecer as edições dos livros do Chico. Isso na época em que o sr. Thiesen [Francisco Thiesen, 1975-1990] e o dr. Armando [de Oliveira Assis, 1970-1975] foram presidentes. Trabalhou para restabelecer todas as edições dos livros do Chico. Foram muitos anos!
Eu tenho muita tranquilidade, porque tudo o que ele fez beneficiou tanto ele quanto os outros. Ele desencarnou com ideias maravilhosas no campo da publicação para crianças e os jovens. Estamos tentando retomar tudo o que ele quis fazer.

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