PIETRO UBALDI E CHICO XAVIER

Por Clóvis Tavares



Chico Xavier conhecia muito pouco da vida de Pietro Ubaldi, porque não havia literatura suficiente, o visitante não se revelava e a barreira lingüística impedia a fácil comunicação entre eles. Qualquer diálogo somente poderia ocorrer com a presença de um intérprete. Logo, aquele momento, depois da recepção das mensagens, de “Sua Voz” e de Francisco de Assis, era propício às revelações dos espíritos através de Chico, em que o fenômeno mediúnico se evidenciou com toda a sua autenticidade, relatado por Clóvis Tavares, em seu Trinta Anos com Chico Xavier.

“Após a recepção e leitura dos dois luminosos documentos, como de hábito, Chico passa a descrever, em sua encantadora simplicidade, os acontecimentos por ele percebidos no ambiente psíquico que se formara durante os serviços espirituais da noite.

Esse momento é assim descrito pelo Prof. J. A. Pessanha, um dos presentes: “Após a leitura, o querido médium brasileiro relatou o que foram para ele os instantes extraordinários que acabara de viver. Não podia individualizar: era uma grande luz que descia do Alto sobre o recinto. Sentiu-se transportado em espírito para muito longe e, nesse vôo, contempla na Itália distante o túmulo de São Francisco, em Assis, junto ao qual vê o Prof. Ubaldi despedir-se, antes de sua viagem ao Brasil, do seu grande amigo: o “Poverello” de Assis. Este fato real — depois narrado pelo próprio Prof. Ubaldi em carta aos amigos brasileiros — era ainda desconhecido de F. C. Xavier e então, só de conhecimento do Prof. Clóvis Tavares, em virtude de sua correspondência particular com o Missionário da Úmbria”.

Quero confirmar que, dessa visita do Prof. Ubaldi ao túmulo do Santo de Assis, captada psicometricamente pelo nosso Chico, ainda guardo alguns “souvenirs” que me foram carinhosamente presenteados pelo grande amigo italiano. Tudo maravilhosamente exato e exatissima-mente confirmado.

Agora, alguns aspectos de xenoglossia, através da límpida clarividência do médium Xavier.

Declara o sensitivo mineiro que dele se aproximou uma Entidade Espiritual, revelando chamar-se Lavínia e haver sido mãe do Prof. Ubaldi. Abraçou o filho, carinhosamente, dizendo: — “Para Cristo ele é um Apóstolo, mas para mim será sempre o meu “bambino”. E entre expressões afetuosas chamou-lhe: “Mio garo- fanino”.

O Prof. Ubaldi, muito feliz e muito comovido, sentindo, igualmente, a presença maternal, comprova tudo, declarando que era com esse “vezzeggiativo” que sua Mãezinha o apelidava ternamente, quando pequenino, “mio garofanino”: “meu pequeno cravo”.

Chico assinalou ainda a presença do filho do Professor, morto na segunda Guerra mundial, na batalha de Tobruk, no Norte da África, — o jovem Franco Ubaldi.

Finalmente, um fato ainda mais interessante, se é possível assim dizer. Chico registra a presença de uma irmã do Prof. Pietro, já desencarnada, que veio em companhia de D. Lavínia Alleori Ubaldi e de Franco, seu filho. Afirma ela chamar-se Maria. É aí que sobrevém algo de duvidoso e inédito, mas que veio a tornar-se um fato probatório extraordinário. O Professor declara, humildemente, que, de fato, tem uma irmã chamada Maria, mas ainda viva, na Itália, — Maria Ubaldi Papparelli…

Um momento abalador, de hesitação geral, de ansiedade, quase de choque, ante o insólito acontecimento. Mas, foi questão de segundos, de brevíssimos segundos: o Espírito Maria esclarece ao Professor, através de Chico, afirmando que ela fora também sua irmã, homônima da que estava viva na Itália, havendo morrido há muito tempo, quando Pietro Ubaldi estava ainda por nascer… O Professor, então, maravilhado, confessa que só agora, após a elucidação espiritual, recordava que, de fato, sabia haver tido uma irmã, que não chegara a conhecer pessoalmente, também chamada Maria, tal qual a que ainda se acha encarnada na Europa… Foi uma prova realmente maravilhosa, singularíssima, da verdadeira sobrevivência espiritual.

*

Imediatamente após a euforia que nos inundou as almas, ante o fato autêntico que acaba de ser narrado, o médium Xavier nos transmite o pedido de uma Entidade Espiritual amiga entre as que se encontravam no ambiente saturado de elevada espiritualidade.

O pedido foi dirigido ao nosso afetuoso anfitrião, Dr.Rômulo Joviano: que se dirigisse à estande localizada naquela sala e nos trouxesse, aos da mesa, o volume da primeira edição do Parnaso de Além Túmulo, que ali se encontrava; que o abrisse e verificasse a data do prefácio; escrito pelo próprio médium.

Assim foi feito. Dr. Rômulo leu as duas linhas finais daquele prefácio: “Pedro Leopoldo, Dezembro de 1931.

Francisco Cândido Xavier”. Então, a mesma Entidade Espiritual acentuou que “na mesma época, em dezembro de 1931, se iniciava também a missão pública do Professor Ubaldi, que havia recebido sua primeira página mediúnica igualmente em dezembro do mesmo ano : foi a primeira de suas Mensagens: “Mensagem do Natal”, recebida na Itália; na noite de Natal de 1931″.

Uma outra concordância maravilhosa, entre as duas tarefas missionárias, registrada pela história, está no fato de que Francisco Cândido Xavier recebeu a primeira Mensagem do Além-Túmulo, em 8 de julho de 1927, e, Pietro Ubaldi escreveu, sob inspiração, “Os Ideais Franciscanos Diante da Psicologia Moderna”, também em 1927, verificável no livro Fragmentos de Pensamento e de Paixão. 

Foi naquele ano que Pietro Ubaldi fez o voto de pobreza, mas sua missão pública somente começou no Natal de 1931.

Negar é fácil, mas anular uma verdade é impossível!

*

Concluindo o encontro entre os dois missionários, afirmou ainda Clóvis Tavares

“O dia memorável se encerrou de maneira encanta-doramente espiritual. Entre outras mensagens recebidas pelo nosso admirável Chico, escolho esta do grande Espírito Cruz e Souza, intitulada “O Herói”, que o grande simbolista do parnaso brasileiro dedica ao ilustre visitante, já na madrugada da data natalícia do Professor Ubaldi (18 de agosto), homenagem aos seus 65 anos bem vividos, balizando a Verdade e o Bem:

O HERÓI

Afrontando o aguilhão torvo e escarninho
De sarcasmos e anseios tentadores,
Ei-lo que passa sob as grandes dores,
Na grade estreita do terrestre ninho.
Relegado às agruras do caminho,
Segue ao peso de estranhos amargores,
Acendendo celestes resplendores,
Atormentado, exânime, sozinho …
Anjo em grilhões da carne, errante e aflito,
Traz consigo os luzeiros do Infinito,
Por mais que a sombra acuse, gema e brade !
E, servindo no escuro sorvedouro,
Abre ao mundo infeliz as portas de ouro
Para o banquete da imortalidade.
Cruz e Souza”.

De Pedro Leopoldo, dia 21 de agosto, a caravana. veio a Campos e o Professor Pietro Ubaldi fez cinco conferências em nossa cidade: duas na Escola Jesus Cristo, uma no Fórum Nilo Peçanha, outra no Trianon e a quinta na Sociedade Fluminense de Medicina e Cirurgia. Ainda visitou a Academia Campista de Letras, a Liga Espírita de Campos e deu uma entrevista na Associação de Imprensa Campista. Em 30 de agosto, Pietro Ubaldi, Clóvis Tavares e outros companheiros retornaram à longa peregrinação pelo país.