“Humberto de Campos, o escritor

cujo objetivo é escrever com proveito”

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Isabela Pereira Dias Esperança: 

“Humberto de Campos, o escritor cujo objetivo é escrever com proveito”

Estudiosa da obra de Humberto Campos, a professora fluminense fala-nos sobre a obra mediúnica do notável escritor, que desencarnou há 80 anos.

Isabela Pereira Dias Esperança, professora de Língua Portuguesa da Secretaria de Estado e Educação do RJ, e de Língua Espanhola da Fundação de Apoio à Escola Técnica, é graduada em Letras e pós-graduada em Língua Espanhola. Vinculada ao Centro Espírita Filhos da Luz, de Barra Mansa (RJ), cidade onde nasceu e reside, é espírita desde 2010 e estudiosa e pesquisadora da obra psicográfica de Humberto Campos/Irmão X, cujos 80 anos de desencarnação são lembrados agora em dezembro de 2014. Pela extensão e valor da entrevista, publicamo-la em duas partes. A parte final será publicada na próxima semana. 

Situe Humberto de Campos para o leitor.

Em 25 de outubro de 1886 nasceu em Miritiba (MA) Humberto de Campos Vera, conhecido como Humberto de Campos, inclusive pela psicografia de Chico Xavier, na qual também se utilizou do pseudônimo Irmão X. De família humilde, pouca instrução formal recebeu, e aos seis anos já era órfão de pai; cedo se empregou em trabalhos rudes do ambiente interiorano. Autodidata, perquiridor, encontramos um espírito resistente e perseverante. Um pouco mais crescido, trabalhando como tipógrafo, fora do expediente corria à biblioteca pública da cidade, onde se abastecia em meio aos livros. De uma vida obscura e sofrida, passou por inúmeros postos de trabalho subalterno até obter reconhecimento enquanto literato na Academia Brasileira de Letras. Jovem, trabalhando como revisor de um jornal em decadência, surge-lhe a oportunidade do início de uma carreira jornalística. O embrião que jazia adormecido e cultivado com a leitura pôde agora germinar. Desencarna por enfermidade no dia 5 de dezembro de 1934; nos últimos anos, enquanto esteve doente, premido por dificuldades financeiras, trabalhou incansavelmente até as vésperas de seu desenlace, apesar das dores e do mal que sofria, procurando manter o pão no lar. Como nos dizeres de Almerindo sobre Humberto de Campos, “nos subterrâneos do ser, existe a riqueza espiritual de uma alma, que permanece inerte e fria, antes de trazida à plenitude de sua expansão, na entrosagem da vida, tornando-se capaz de derramar claridades e energias no ambiente social, de que é partícula integrante”, assim é Humberto de Campos na psicografia de Francisco Cândido Xavier: um farol a nos guiar para seguirmos luz acima. 

Quantos livros ele produziu quando encarnado e depois pela psicografia pelo médium Chico Xavier?

Humberto de Campos quando encarnado desfrutou de grande popularidade, chegou a publicar inúmeros livros de Poesia, Literatura Infantil, Crítica Literária, Memorialística, organizou Antologias. Sua obra é mais vasta em Contos do Conselheiro XX e em Crônicas. Mais de 40 obras levam sua autoria. Observamos que sua obra, quando encarnado, obedece a duas fases distintas, marcadas pela enfermidade do escritor. Em seus últimos cinco anos de vida, descobre que padece de hipertrofia da hipófise, do que lhe advêm imensas dores. A cegueira ameaça-lhe a visão, grandes dificuldades financeiras batem-lhe à porta. Nesse período começa uma nova fase de escrita, em que expõe ao público suas próprias dores, tornando-se personagem de seus escritos, aumentando sua popularidade porque mais se aproximava dos leitores. Assinala o crítico Herman Lima: “Humberto de Campos enche os seus escritos de um tão alto espírito de humanidade, que atinge, às vezes, a pureza das grandes vozes cristãs. Quanto mais sofre, mais a sua palavra se depura. E mais resplandece”.  Período esse certamente  preparatório para o trabalho que seria feito junto a Emmanuel e Chico Xavier mais tarde, como o próprio Humberto de Campos intui:  “Ameaçado de cegueira, já com uma das vistas perdida e, assim, de tombar inútil precisamente quando sentia o espírito melhor provido para a realização de uma obra literária que me sobrevivesse, eu sou como um operário que passou anos inteiros a carregar o material para construção de um abrigo para os seus dias de velhice, e a quem cortam os braços no momento em que vai lançar o primeiro tijolo. A fatalidade tapa-me os olhos no instante, precisamente, em que ia beber com eles, comovidamente, o vinho de ouro do sol…” E assim tocado grandemente nas fibras do seu ser desencarna Humberto de Campos em 5 de dezembro de 1934.  Já em março de 1935 Chico Xavier em carta endereçada a Manuel Quintão, responsável pela sua produção mediúnica na FEB, relata um sonho que tivera em fevereiro do mesmo ano, em que foi apresentado a Humberto de Campos no plano espiritual, e logo temos a página “De um casarão de outro mundo” datada de 27 de março de 1935, pouco mais de três meses após a desencarnação do escritor. Os textos a princípio são divulgados na revista Reformador a partir de abril de 1935, e deram origem aos livros Crônicas de Além-Túmulo, obra editada em 1937, seguida por Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, Novas Mensagens, Boa Nova e Reportagens de Além-Túmulo, todos atribuídos a Humberto de Campos. A partir do caso Humberto de Campos, ação movida por seus familiares na questão dos direitos autorais, as obras passaram a ser assinadas pelo pseudônimo Irmão X. São elas Lázaro Redivivo, Luz Acima, Pontos e Contos, Contos e Apólogos, Contos desta e doutra Vida, Cartas e Crônicas e Estante da Vida. Encontramos também páginas suas em obras de Espíritos diversos, e após um período retornou com Relatos da Vida, de 1988, e Histórias e Anotações, de 1989, todas elas psicografadas por Francisco Cândido Xavier. 

O que mais lhe chama atenção nas obras ditadas por esse Espírito? Por quê?

“Meu problema atual não é o de escrever para agradar, mas o de escrever com proveito”, escreveu Humberto de Campos no prefácio do livro Boa Nova Escritor notabilizado como cronista enquanto encarnado, encontramos em suas biografias relatos de que recebia cartas do público que se sentia consolado com seus escritos. Pediam a ele conselhos, orientações para as dores da jornada, e muitas das cartas que recebia se transformavam em crônicas. A crônica é o gênero literário que atende aos fatos do dia a dia, que reflete o sentimento do povo, que interpreta o cotidiano, com vistas a agradar ao público, preso a um determinado espaço e tempo. É um relato curto e histórico que se esvai com o decorrer do tempo de sua publicação. Não tem a perenidade típica dos outros gêneros literários. Na obra de Humberto de Campos desencarnado já não lhe atribuímos semelhantes características. Certamente se trata de crônicas, relatos, porém de vida eterna. Em continuidade ao trabalho de Allan Kardec, que, na introdução de O Evangelho segundo o Espiritismo, esclarece o objetivo de sua obra, voltada especificamente para os ensinos morais de Cristo, por constituírem uma parte inatacável, “bandeira sob a qual todos podem abrigar-se”, o nosso autor espiritual nos traz páginas de luz imperecíveis. Ele ultrapassa o cronista típico, do relato comum segundo uma visão pessoal do dia a dia, para uma experiência transcendente enquanto desencarnado, ofertando-nos reflexões para que edifiquemos nosso roteiro conforme a proposta de Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim”.  A obra de Humberto de Campos ou Irmão X na mediunidade sublime de Chico Xavier certamente corresponde aos objetivos da obra espírita, conforme citado por Kardec. 

Quais obras são as mais marcantes em seu parecer? Por quê?

Em palestra na Casa da Prece de Chico Xavier, Haroldo Dutra Dias comentando especialmente as obras de Humberto de Campos deteve-se em observação na obra Boa Nova que, segundo suas palavras, é Jesus que está “de volta”, em uma tarefa do plano espiritual para resgate do Evangelho. Os contos recolhidos no plano espiritual se baseiam em experiências de conversão vivenciadas por personalidades por nós conhecidas em seu encontro com Cristo. No trabalho empreendido pelo seu apostolado, Maria de Magdala, Joana de Cusa e Zaqueu, para citarmos alguns, são em seus contos testemunhos do caminho espiritual a seguir por toda a humanidade através da exemplificação na humildade e no trabalho. Compreendemos que a nossa conversão, como nos diz Emmanuel em uma página de mesmo nome, exige de todos nós sacrifícios pessoais, lutas com nós  mesmos, para que, só assim, possamos dar testemunho a Cristo e a nossos irmãos. E entendemos que a conversão está além de nos “maravilharmos ante as revelações espirituais”; exige trabalho e determinação. A história de Joana de Cusa ocupa o capítulo 15 do livro Boa Nova (como é hábito o leitor abrir o livro no meio, quando folheia uma obra pela primeira vez, então costumamos ali encontrar a parte mais importante). É uma história que encerra grande ensinamento: Joana de Cusa é por Jesus orientada a compreender o marido preso a ideias de poder como um irmão que necessita de compreensão em sua jornada, e, diante da fogueira, convidada a abjurar Jesus para  livrar a si e ao filho do testemunho, ela não só confirma sua fé na vida eterna, como no amor “ao próximo como a si mesmo” ao tratar compassivamente aquele que lhe atearia fogo. Logo em seguida, no capítulo 16, temos a história de Tomé, discípulo comumente preso a demonstrações materiais, que pede a Jesus envie sinais de seus poderes divinos para convencimento de homens ilustres. Jesus carinhosamente responde que “não é necessário que vejam a mim, mas sim a verdade que trago de Nosso Pai”. E Jesus então aguarda pacientemente essa conversão de nosso coração à nossa origem divina. Como na página de Emmanuel “Caindo em si”, ainda estamos jungidos a interpretações puramente verbalistas da fé e a obra Boa Nova é o trabalho de um grande Espírito conhecido como Humberto de Campos ou Irmão X, que, caindo em si, trabalha incessante e intensamente a fim de afeiçoar seus sentimentos a exemplo do Cristo trazendo-nos páginas luminosas. 

Destaque um dos contos que mais lhe chamou atenção.

São encantadores os contos de Humberto de Campos em que acompanhamos a trajetória de Simão Pedro, iniciada na obra Boa Nova ano conto “a Negação de Pedro”. Jesus, ao se preparar para lavar os pés dos seus discípulos, vê que Pedro, orgulhoso, não concorda com a submissão do Mestre e a lição que buscava dar. Amorosamente, Jesus esclarece a Pedro que ainda para o discípulo é necessário o auxílio do mestre e que nunca deve querer ser melhor que seus irmãos. De espírito inquieto e inexperiente, Pedro não compreendia as exortações de Cristo. “Ainda não te encontras preparado para seguir-me. O testemunho é de sacrifício e de extrema abnegação e somente mais tarde entrarás na posse da fortaleza indispensável”, diz-lhe o Mestre que, diante da indignação de Pedro ao dizer-lhe que o apóstolo o negaria por três vezes, asseverou com doçura: “Não, Pedro [..] não te suponho ingrato ou indiferente aos meus ensinos. Mas vais aprender, ainda hoje, que o homem do mundo é mais frágil do que perverso”. Em inúmeros contos percebemos essa luta desse espírito frágil para empreender esse caminho de sacrifício e abnegação, como no belíssimo conto “Nas hesitações de Pedro” do livro Luz Acima. Bateu à porta da Casa do Caminho, que Simão Pedro dirigia, uma infeliz pecadora que fora lapidada. As senhoras que ali trabalhavam em auxílio se retraíram ante aquela presença desventurada, e o apóstolo, atingido no íntimo pelo preconceito, sentindo ânsias de pedir para que ela se fosse, recorre à inspiração do Mestre. Diante das resoluções propostas por Simão de julgá-la, mostrar-lhe a extensão de seus erros e seus padecimentos, o Mestre esclarece: “Pedro, para ferir e amaldiçoar, sentenciar e punir, a cidade e o campo estão cheios de maus servidores. Nosso ministério ultrapassa a própria justiça. O Evangelho, para ser realizado, reclama o concurso de quem ampara e educa, edifica e salva, consola e renuncia, ama e perdoa…” Pedro então abre a casa, acolhedor, aceitando como irmã a mulher sofredora. As hesitações de Pedro são nossas próprias hesitações em nossa jornada diante das resoluções que devemos tomar para construir nossa fortaleza espiritual. No livro Antologia Mediúnica de Natal encontramos o conto “o Natal do Apóstolo” em que Simão Pedro, já aos oitenta anos, é conduzido ao madeiro para sofrer na cruz o suplício final. Também acompanhado pela turba inconsciente, um algoz agrava seus padecimentos atirando-lhe palavras e calhaus, ocasionando a desencarnação de Pedro, que é então recebido por Jesus. Depois, ele escuta um chamamento da Terra: é seu algoz que, diante da enfermidade do filho, roga a Simão auxílio e perdão, e o apóstolo, agora amadurecido pelas experiências e possuído pelo ideal de fraternidade, sem hesitações, corre para atender seus irmãos em humanidade.

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Isabela Pereira Dias Esperança


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