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 Na noite de 8 de julho de 1927, como acontecia todas as sextas-feiras, houve reunião no Centro Espírita Luís Gonzaga. Tudo transcorria normalmente, quando Dona Carmen Perácio, que presidia os trabalhos, comunicou a Chico que um Espírito gostaria de se comunicar através dele. Para tal, solicitava ao médium apanhar lápis e papel que se encontravam em cima da mesa. Ia testar a sua capacidade de psicografar.

          “Obedeci ao conselho recebido e, de imediato, um amigo espiritual escreveu 17 páginas, usando a minha mão, com grande surpresa de minha parte, conquanto registrasse fenômenos mediúnicos em minha experiência pessoal desde a infância.

          Todo aprendizado é um exercício de paciência e humildade. Chico sentiu isso quando as mensagens psicografadas começaram a se amiudar. O exercício era extenuante. O médium tinha de se amoldar, digamos, às mãos dos Espíritos. Pior do que carregar pedra.

          Chico sentia como se um cinto de ferro fosse lhe comprimindo a cabeça aos poucos. O braço parecia se mineralizar, virar barra de ferro, pesado, mas arrastado por uma força muito grande. Ficava extenuado. O estado psicológico oscilava entre extremos de bom e mau humor. Haveria intervenção do subconsciente do médium nas mensagens recebidas? É possível. Tanto assim que, durante os quatro anos que durou a aprendizagem, os Espíritos não assinavam as mensagens.

          Durante estes anos, Chico trabalhou firme no Centro Luís Gonzaga, então localizado em casa de seu irmão, José Cândido. O primeiro grande desafio surgiu em outubro de 1927. Neste mês, mudou-se para Pedro Leopoldo uma estranha família, procedente de Pirapora, cidade mineira localizada às margens do Rio São Francisco. Dona Rita Silva começava a apresentar sinais de esgotamento. Suas quatro filhas sofriam de constantes e violentos acessos de loucura. Nestes momentos, debatiam-se, mordiam-se umas às outras, uivavam, blasfemavam. Uma delas tivera de viajar acorrentada, tamanha a sua fúria.

          O tratamento das irmãs obsidiadas, como dizem os espíritas, durou alguns meses.

          Em certa ocasião – a coisa ainda estava no início –, José, seleiro de profissão, foi obrigado a viajar. Chico ficaria sozinho no Centro. Precisava de um colaborador.

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          Por esta época, aparecera em Pedro Leopoldo um certo Manoel. Era homem rústico, mas de bom coração. O povo comentava que ele tinha muita experiência em tratar pessoas atacadas. Diante dele, os Espíritos das trevas saíam de mansinho e até o próprio diabo se retirava, rabinho entre as pernas, tentando disfarçar o cheiro de enxofre com algum perfume.

          José não hesitou. Procurou o homem e solicitou-lhe a cooperação. Seu Manoel não se fez de rogado. Aceitou no ato. No dia e hora combinados, lá se apresentava ele no Centro Espírita Luís Gonzaga, tendo sob o braço a sua velha e pesada Bíblia.

          A sessão começou tranquila. Um Espírito incorporou-se em Chico e pôs-se a orientar Seu Manoel sobre os trabalhos.

          “Meu irmão, se algum Espírito perturbador se apossar do médium, aplique-lhe o Evangelho sem vacilar.”

          Seu Manoel prometeu obedecer à ordem. De repente, Chico começou a dar todos os sinais de estar possuído por uma entidade perturbada. O homem não hesitou. Apanhou sua pesada Bíblia e pôs-se a socá-la sem parar na cabeça de Chico, exclamando com veemência:

          “Tome Evangelho! Tome Evangelho!”

          Durante seis dias, Chico teve de ficar de repouso, a fim de curar o torcicolo provocado pelas pancadas evangélicas de Seu Manoel.

          Menos tragicômico foi o caso do cego. Guiado por um bêbado, o homem despencou de uma altura de quatro metros. Desfalecido e ensanguentado, permaneceu horas debaixo do viaduto da Central do Brasil. Ninguém foi auxiliá-lo.

          Quando soube do acidente, Chico apressou-se a socorrer o cego. Alugou um quarto num velho pardieiro, para o homem se recuperar, e conseguiu que um médico receitasse de graça, mas essas providências eram insuficientes. O doente precisava de enfermagem.

          À noite, após o trabalho, Chico velava o sono do cego. Durante o dia, porém, o homem ficava sozinho. Chico resolveu então publicar um anúncio no jornal semanal da ciadade pedindo auxílio. Seis dias depois, duas conhecidas prostitutas se ofereceram para cuidar do enfermo de dia.

          A recuperação do cego durou um mês. Concluída a missão, as duas mulheres anunciaram a Chico sua resolução de mudar de vida:

          “Você e suas preces modificaram nossas vidas. Vamos nos mudar para Belo Horizonte e procurar trabalho honesto.”

          Uma delas conseguiu colocação numa tinturaria, morrendo alguns anos depois. A outra tornou-se enfermeira, e talvez ainda esteja viva.

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          Aos poucos, Chico foi aperfeiçoando sua faculdade de psicografia. Numa reunião realizada em janeiro de 1929, no Centro Luís Gonzaga, Dona Carmen Perácio teve uma visão simbólica da futura missão, como dizem os espíritas, de Chico:

          “Afirmou nossa irmã que vira muitos livros em torno de mim, trazidos por amigos desencarnados. Eu não tinha qualquer pensamento a respeito do assunto…”

          As mensagens psicográficas, porém, se multiplicavam. Em todas elas pregava-se o amor, a compreensão e a tolerância entre os homens. Chico sentiu-se então num dilema. Por que não divulgá-las? Mas publicá-las com o nome de quem? O médium sentia escrúpulos. Afinal, não se tratava de obras suas.

          Em conversa com o irmão José Cândido, e alguns amigos de Pedro Leopoldo, estes mostraram-se favoráveis à publicação. Mas, para dissipar as dúvidas, resolveram escrever para o Aurora, um jornal espírita do Rio de Janeiro, expondo o problema. Assinar ou não assinar? Inácio Bittencourt, diretor da publicação, respondeu que não via nenhum inconveniente em publicar aquelas páginas com o nome do médium. Ninguém poderia afirmar se eram ou não de Chico.

          Foi a partir daí que o nome F. Xavier (como Chico assinava) começou a figurar em várias publicações, assinando sobretudo poesia. Seus trabalhos apareciam no Jornal das Moças e no Suplemento Literário de O Jornal, ambos do Rio de Janeiro, e no Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro, editado em Portugal.

          Chico recorda-se com especial carinho de um poema psicografado por esta época:

          “Lembro-me de um soneto intitulado Nossa Senhora da Amargura. Se não me engano, foi publicado no Almanaque de Lembranças, de Lisboa, na edição de 1931. Eu estava em oração, certa noite, quando se aproximou de mim o Espírito de uma jovem, irradiando intensa luz. Pediu papel e lápis, e escreveu o soneto a que me referi. Ela chorava tanto ao escrevê-lo, que eu também comecei a chorar, de emoção, sem saber, naquele momento, se meus olhos eram os dela ou se os olhos dela eram os meus.”

          Mais tarde, através de Emmanuel, Chico soube que se tratava do Espírito Auta de Souza.

          O soneto, com a assinatura de Chico, foi enviado a Portugal por José Cândido. Meses depois, o médium recebeu uma carta altamente elogiosa de um dos colaboradores do Almanaque.

          “Recebi elogios por um trabalho que não me pertencia.”

          A esta altura, a mediunidade psicográfica de Chico já fluía com a desenvoltura, o frescor e a limpidez da água de um riacho brotando da terra. Não mais sentia aquela pressão alucinada na cabeça e nem o enrijecimento doloroso do braço. Aprendera a se entregar, a não criar resistências.

          “Estou habituado a ser o instrumento passivo da vontade espiritual. Já não me canso e, depois de receber as mensagens, continuo no mesmo estado físico e psicológico em que me achava antes.”

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          O médium achava-se apto a sintonizar com os mais diversos tipos de sensibilidade. Foi então que o Espírito Emmanuel tornou-se seu guia. O primeiro encontro dos dois ocorreu em fins de 1931. Uma tarde, o médium descansava debaixo de uma árvore, próximo a um açude, na saída de Pedro Leopoldo, quando viu um Espírito aproximar-se. Vestia uma túnica semelhante à dos padres, e indagou se ele, Chico, estava resolvido a utilizar sua mediunidade na difusão do Evangelho de Jesus. Chico assentiu, perguntando se Emmanuel o achava em condições.

“Perfeitamente. Desde que você procure respeitar os três pontos básicos para o serviço: 1º – disciplina; 2º – disciplina; e 3º – disciplina.”

Segundo Chico, a última encarnação de Emmanuel fora como o jesuíta Manuel da Nóbrega, um dos fundadores da cidade de São Paulo. Há dois mil anos, Emmanuel vivera em Roma. Chamava-se Publius Lêntulus e era senador. Pouco depois, reencarnou como escravo. Cristão, morreu na arena, dilacerado pelas feras, aos gritos de prazer da nobreza ociosa que cercava os césares.

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“Desde que Emmanuel assumiu o comando de minhas faculdades, tudo ficou mais claro, mais firme. Ele apareceu em minha vida mediúnica assim como alguém que viesse completar a minha visão real da vida.”

Neste mesmo ano de 1931, Chico psicografou o primeiro poema com a assinatura de um morto: Casimiro Cunha. Seria praticamente impossível que o moço de Pedro Leopoldo conhecesse o poeta fluminense, àquela altura esquecido em sua própria terra. Cego desde os 16 anos, Casimiro Cunha (1880-1914) nascera, vivera e morrera em Vassouras.

Em seguida, foram surgindo poemas assinados por figuras da mais alta cotação na bolsa literária das letras brasileiras e portuguesas: Castro Alves, Alphonsus de Guimarães, Olavo Bilac, Antônio Nobre, Fagundes Varela, João de Deus, Guerra Junqueiro, D. Pedro II, Raimundo Correa, Casimiro de Abreu, Júlio Diniz, Cruz e Souza e muitos outros.

O fato repercutiu de imediato na pequena Pedro Leopoldo. Por essa época, Chico achava-se no enterro de um amigo, quando um jovem padre aproximou-se dele e indagou:

“Chico, andam dizendo que você recebe mensagens do outro mundo…”

“É verdade, sinto que alguém se apossa de meu braço para escrever as mensagens.”

“Pois acautele-se. O Espírito das trevas tem muita astúcia para seduzir para o mal.”

“Mas os Espíritos que se comunicam através de mim só ensinam o bem.”

 “Vejamos, então. Estamos no cemitério, acompanhando um amigo morto. Será que há por aqui algum Espírito desejando escrever?” – desafiou o padre, puxando um papel em branco do bolso.

Chico, sem hesitar, apanhou o papel. Concentrou-se e, minutos depois, escreveu um soneto, intitulado Adeus. Desta vez, a poetisa assinara: Auta de Souza. Eis o poema:

 

O sino plange em terna suavidade,

No ambiente balsâmico da igreja;

Entre as naves, no altar, em tudo adeja

O perfume dos goivos da saudade.

 

Geme a viuvez, lamenta-se a orfandade;

E a alma que regressou do exílio beija

A luz que resplandece, que viceja,

Na catedral azul da imensidade.

 

“Adeus, Terra das minhas desventuras…

Adeus, amados meus…” – diz nas alturas

A alma liberta, o azul do céu singrando…

– Adeus… – choram as rosas desfolhadas.

– Adeus… – clamam as vozes desoladas

De quem ficou no exílio soluçando…

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Contam que, entusiasmado com os poemas que psicografava, Chico resolveu mostrá-los a um escritor, bastante popular à época em Minas, e que se achava de passagem por Pedro Leopoldo. O brilhante intelectual foi arrogante e implacável, e classificou Chico de besta.

No ano seguinte, 1932, Manuel Quintão, da Federação Espírita Brasileira, reuniu todas aquelas poesias em livro, com um título que, por si só, já era um achado e um chamariz: Parnaso de Além-Túmulo. A repercussão foi explosiva. Caíra uma bomba bem no meio da aldeia literária brasileira.

Jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo enviaram repórteres e fotógrafos a Pedro Leopoldo, a fim de apresentar ao país aquele misterioso caipira de apenas 22 anos, que emergia do anonimato com uma aura de gênio e mistificador. Os intelectuais reagiram de maneira diversa e contraditória. João Dornas Filho arrasou o capiau pretensioso, que teve a audácia de poetar, utilizando o nome alexandrino de Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac.

“Se Chico Xavier produziu tudo aquilo por conta própria, então ele merece ocupar quantas cadeiras quiser na Acadeia Brasileira de Letras.”(Monteiro Lobato) 

“Deve haver algo de divindade no fenômeno Francisco Xavier. O milagre de ressuscitar espiritualmente os mortos pela vivência psicográfica de inéditos poemas é prodígio que somente pode ocorrer na faixa do sobre-humano.”(Menotti Del Picchia)

Falou-se, então, muito em Paul Reboux, que numa série de livros intitulados À La Manière de... pastichava os principais escritores franceses, de Racine a Flaubert, de Zola a Mallarmé, de Victor Hugo a Gide.

Quem analisou melhor a questão foi R. Magalhães Júnior, a propósito da quarta edição do Parnaso, em 1944. O cronista lembrou a facilidade com que uma pessoa afeita a escrever se impregna dos tiques literários de um escritor, lido durante um certo tempo, sem que essa leitura se misture a outras. E argumentava: “Quem ler durante 60 dias, noite e dia, dia e noite, apenas Euclides da Cunha, escreverá no estilo de Euclides sem notável esforço, sem fazer uma ginástica mental muito dura.”

Na realidade, esse argumento é um pau de dois bicos, pois o que se vê é exatamente o imitador reproduzir os cacoetes e vícios do pastichado, sem atingir-lhe as qualidades. Magalhães frisava que a imitação exigia cultura, lógica na seleção dos assuntos e na exposição das ideias. Desta forma, somando-se tudo que se arguía contra o médium mineiro, o cronista concluía que “se Chico Xavier é um embusteiro, é um embusteiro de gênio”.

O que mais surpreendeu a Magalhães, porém, foram certas quadrinhas atribuídas a Antônio Nobre, que traziam “uma forte marca de identificação, parecendo mesmo sopradas ao ouvido de Chico Xavier”. Como esta: “Ó figuras de velhinhos / Que andais dormitando ao léu!… / Como são belos os linhos / Que vos esperam no céu!”

As críticas mais ásperas vieram, como era de se esperar, de católicos. O Padre Júlio Maria, da cidade mineira de Manhumirim, em seu jornal O Lutador,arrasou Chico. Com ironia, dizia que o médium devia de ter uma pele de rinoceronte para suportar tantos Espíritos. As acusações se repetiram com tanta violência que Chico acabou adoecendo, dominado pelo desânimo. Levantou-se, de ânimo redobrado, após uma severa repreensão de Emmanuel. E, durante 13 anos, teve de suportar os ataques arrebatados do Padre Júlio Maria que, caprichosamente, lhe enviava todos os números de O Lutador.    

Livro:  Chico Xavier – Uma Vida de Amor

Ubiratan Machado

IDE – Instituto de Difusão Espírita 

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