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Há quase dois anos, eu estava em um restaurante com uma amiga que me disse “Está vendo aquela menina ali? Ela adora seu blog, acompanha suas postagens”. Eu falei: “E ela está grávida, não é? Que legal! Me aprensenta a ela!”. Foi quando minha amiga disse: “Está grávida, sim, mas acabou de descobrir que seu filho é anencéfalo. Não deve sobreviver por muito tempo”. Levei um baque. Imaginei como aquela menina, que curtia o sonho de ser mãe pela primeira vez, estava se sentindo. A partir disso, passei a acompanhar, pelas redes sociais, a sua história. Agora era eu que a admirava, eu que lia suas postagens. E assim eu tive a chance de conferir cada passo daquela gravidez e a alegria de ter aprendido tanto com o pequeno Davi Lucas.

E assim segue a história que passei a chamar de:

O anjo Davi Lucas – um caso de anencefalia:

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Patrícia e Rodrigo acabaram de se tornar pais do pequeno Daniel. O menino, tão esperado e já amado, veio para trazer mais alegria ao casal. Mas essa história não começa aqui. Daniel nasceu sem ter conhecido seu irmão Davi Lucas, o menino que transformou o família e todos que estiveram próximos ao casal.

Era agosto de 2013. Ao chegar do trabalho, Rodrigo se depara com um sapatinho de bebê, comidas de criança e um teste de gravidez. Sim, Rodrigo e Patrícia teriam um filho e, desde aquele momento, já sentiam a sensação de serem pais. Os dois começaram a contar a notícia aos familiares, amigos e muitos deles já enviavam presentes. Todos ansiosos para conhecer o novo anjinho que estava para chegar. Seria menino ou menina? Com quem iria se parecer? E assim vieram os sonhos, os planos para o futuro da nova família, aquleles anseios que todos os pais de primeira viagem têm. Mas, antes de tudo, havia uma bateria de exames ainda durante a gravidez. Acompanhamento mês a mês para verificar se estava tudo bem com a criança.

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Ao realizar o exame translucência nucal, os dois não esconderam o nervosismo por saber que poderiam detectar algum tipo de doença. Ainda na sala de espera, um frio na barriga e um sentimento de angústia e apreensão, que se tornaram um alívio quando o médico disse que estava tudo bem. Dias depois, chega o momento de saber o sexo do bebê. Mais ansiedade, no entanto, agora sem angústia, era só alegria, saber se seria um garotinho ou uma princesinha. “No momento em que o médico começou o exame já pude ver que era um menino… Mas ainda faltava a confirmação. Percebemos que o médico falou um pouco rápido e sem nenhuma empolgação: ‘é um menino, aqui está a pitoquinha dele’. Meu sonho estava sendo realizado, seria pai de um menino”, relata Rodrigo, contando como foram os próximos segundos dessa consulta: “Foi então que o médico começou a perguntar… ‘Vocês fizeram a translucência nucal?’. ‘Quem foi o médico que fez o exame?’. ‘Ele não falou nada?’. Não precisava ser da área de saúde pra entender que havia algo diferente”, conta o pai. Nesse instante, Patrícia viu que algo no semblante do médico denunciava que não estava tudo bem. “Ele pediu então para olharmos para os olhinhos do nosso filho e nesse momento pensei que ele falaria que ele teria Síndrome de Down. Já comecei a pensar que iria chegar em casa e pesquisar sobre isso, quais seriam os cuidados especiais que ele iria requerer, comunidades de mães entre outras coisas. Todos esses pensamentos não duraram 1 minuto, porque logo após ele nos mostrou que acima dos olhinhos do nosso filho não havia mais nada e nos explicou que nosso menino tinha anencefalia”, revela Patrícia, lembrando: “Rodrigo já começou a passar mal, com a vista embasada teve que sentar para não desmaiar. Eu continuei atenta ao que o médico me falava e, mesmo a palavra sendo tão clara, não consegui entender o que significava. Encarei o médico com os olhos marejados e lhe perguntei o que aquilo queria dizer. Ele explicou que devido a uma falha no fechamento do tubo neural, meu filho não havia desenvolvido a calota craniana e havia formado pouco tecido cerebral. Mesmo com a explicação, ainda não conseguia aceitar o que isso significava e lhe perguntei o que aquilo tudo queria dizer. Foi quando ele falou que meu filho tinha uma expectativa de vida de poucas  horas ou dias (isso se chegasse a nascer vivo)”.

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E, em segundos, os planos, os sonhos, tudo pareceu ter descido água abaixo. As lágrimas daquela “futura mãe”, antes discretas, agora inundavam seu rosto. Patrícia e Rodrigo foram orientados a interromper a gestação, o que é permitido pela Justiça em casos como este. Depois, o casal poderia tentar outros filhos. Mas Patrícia não queria outro filho, queria aquele, o SEU menino, seu primogênito, aquele pontinho que tão pequeno já tinha despertado um amor tão grande. “Liguei para meu pai, precisava dividir com quem sempre me amparou e foi meu porto seguro. Ele foi nos buscar, pois não tínhamos condições de dirigir, e quando chegou desabei falando que teria que tirar meu filho. Ele só me falava para ter calma, que isso era algo que não precisava ser decidido logo”, diz Patrícia.

O apoio da família e dos amigos ajudou a amenizar a dor insuportável que os dois sentiam. Ainda não sabiam o que fazer com a possibilidade da interrupção da gestação, mas o coração de mãe falou mais alto. Patrícia, com uma voz mansa e já mais calma, olhou para Rodrigo e disse: “Não tenho coragem de mexer no nosso filho, todo mundo tem problemas. Ele tem o probleminha dele, mas está vivendo. Do jeitinho dele, mas está vivendo”. Foi nesse instante que Rodrigo entendeu o que era amor verdadeiro. “Jamais esquecerei daquelas palavras. Minha admiração e meu amor por ela cresceram de uma forma inexplicável”, conta o pai, que concordou com a esposa, embora soubesse que deveriam estar preparados para tudo o que iriam enfrentar. E os dois trataram de se informar sobre o assunto. Devoraram os informações na internet e procuraram ajuda profissional. Em uma consulta, a médica esclareceu alguns mitos sobre os problemas da gestação de um bebê anencéfalo e, ao entender, que não haveria nenhum risco diferente daqueles habituais da gravidez e que ela apoiaria a decisão do casal, Patrícia e Rodrigo deixaram o consultório com o coração aliviado e a sensação de dever cumprido, aquele de proteger e amar seu filho acima de tudo.

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E proteção foi a palavra de ordem. O garotinho estava ali e iria permanecer em vida até o dia em que Deus permitisse. Então, nomearam o bebê: Lucas. Esse era o escolhido inicialmente, mas, diante da sua condição especial de ter que sobreviver dia após dia, decidiram colocar também o nome Davi, em referência a história de Davi e Golias. “Acreditávamos que nosso filho enfrentava e vencia um gigante a cada dia. E não poderia haver nome mais perfeito para nosso anjinho guerreiro”, relata Rodrigo. Depois disso, cada semana era motivo de vitória para o pequeno Davi Lucas. E os dois comemoraram cada uma como se fosse seu aniversário. O amor pelo menino crescia a cada dia e, além da proteção, outra palavra passou a reinar no lar dessa família: intensidade. Cada dia seria intenso, marcando um amor também intenso.

Com o tempo, Davi Lucas foi conquistando todos que passavam a conhecer sua história. “Lembro-me que no primeiro dia que voltei ao trabalho, antes de começar a aula, fui explicar o motivo da minha ausência e pude perceber que muitos dos alunos estavam chorando. E com eles pude dividir um pouco da minha dor, foram muitas as palavras de apoio, mas o que ficou realmente marcado foi o carinho que eles tiveram por Davi Lucas. Foi realmente incrível, antes mesmo de nascer, meu filho foi capaz de despertar uma admiração e um carinho sem tamanho nessas pessoas”, lembra Rodrigo, que leciona numa faculdade. O pequeno Davi recebeu faixa em sua homenagem, virou status e foi tema de grupos no whatsaap. Foi homenageado pelos formandos com o nome da turma “Davi Lucas Pontual de Lucena”, serviu de inspiração para o nome do filho de uma ex-aluna, virou o “sobrinho” mais querido de muita gente e passou a ser sempre lembrado por todos que conheceram a sua história. Então, mais uma palavra entrava no coração dos pais: orgulho, o sentimento que tomou conta e passou a ser essencial para superarem as dificuldades. 

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Mas, mesmo com tanto apoio, amor e determinação, em muitos momentos não havia como segurar as lágrimas. Saber que seu filho, aquele que cresce ali na barriguinha, que já chuta, já parece escutar o que os pais dizem e já desperta os melhores sentimentos, não ficará por muito tempo não é fácil. Saber que eles poderiam sequer vir a pegar vivo o filho nos braços despertava, lá no fundo, um sentimento de angústia inevitável. Mas a força que o pequeno Davi passava era ainda maior. “Nosso filho estava ali e era o maior exemplo de luta, força e superação. E mesmo ainda na barriga de sua mãe estava mostrando que valia a pena seguir em frente, acreditar nessa história de amor e luta pela vida”, lembra o pai.

E, inspirado no filhote, o casal passou a buscar a felicidade nas pequenas coisas, a vibrar com os chutes na barriga, a contar histórias e cantar por horas e horas, sabendo que Davi poderia estar ouvindo. Cada nova ultra-sonografias era motivo de alegria, de poder vê-lo mais uma vez, ali, mexendo-se, vivo. Momentos intensos que ficarão registrados na memória de Patrícia e Rodrigo. E na pele também. Os dois acabaram tatuando o nome do filho em seus corpos.

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Chega o grande dia. Em 24 de abril de 2014, nasceria Davi Lucas. Orgulho, intensidade, proteção e, mais do que nunca, ansiedade. Amigos e familiares estavam todos presentes. E, mesmo preferindo ter o menino ali com eles para sempre, o casal pediu para que Deus fizesse o que fosse melhor para Davi. Somente para ele. Às 8h08 da manhã, nasce o anjinho da família. E naquele instante, tudo pareceu ter valido à pena. O medo, a insegurança, a dor de uma possível perda tranformados em alívio, felicidade e orgulho daquele guerreirinho. “Devido à anencefalia, ele não chorou após o nascimento. Sem entender muito bem, por um momento achei que o que mais temia tinha acontecido: meu filho não teria sobrevivido ao nascimento. Foi aí que o médico chegou com Davi Lucas nos braços e o colocou próximo à mamãe. Como quem quisesse agradecer por tudo que ela fez, ele emitiu o chorinho (bem discreto) mas o suficiente pra ficar guardado pra sempre na minha memória. Foi tudo muito lindo, acho que com aquele chorinho ele estava querendo dizer ‘obrigado por tudo. Você é a melhor mãe do mundo, te amo’’, conta Rodrigo, emocionado.

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Por seis dias, os pais de Davi viveram intensamente cada segundo ao lado do primeiro filho. E no dia 30 de abril, Davizinho se foi. Os pais temiam que isso acontecesse quando não estivessem presentes, tinham medo do menino se sentir triste, sozinho. Mas nesse momento, estavam ali, com ele em seus braços. Cantaram suas músicas, suas historinhas e explicaram tudo que estava acontecendo. Que ele ficaria em um lugar bom e que sempre estaria entre eles.  “Não há como descrever a felicidade de ter seu filho nos braços quando você passou toda a gravidez com medo que ele nem nascesse com vida! Todos os momentos que estive com Davizinho nesses seis dias foram os mais sublimes da minha vida. Quando Papai do Céu o chamou, ele estava nos meus braços, como se estivesse dormindo, como um anjo que ele é. O primeiro anjo do qual pude ver a face. E que linda face! E que grande dádiva em esse anjo tão guerreiro ser MEU FILHO!”.

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E quando qualquer mãe pode sonhar em ter um filho “perfeito”, vale lembrar que a perfeição não está na formação do corpinho e nem em qualquer síndrome afastada. Nas palavras de Patrícia: “Davi Lucas é meu melhor presente, uma benção recebida de Deus! Me sinto abençoada por ser mãe de uma anjinho tão forte, guerreiro e iluminado. Não poderia ter tido um filho mais perfeito!”. Perfeito, sim. E os pais de Davi entenderam que o filhote veio ensinar mais do que aprender. “Durante sua passagem na terra, ele cumpriu sua bela missão. Proporcionou momentos inesquecíveis não só para os seus pais, mas para todos que viveram a sua história. Ganhei dele um aperto de mão (no dedo), um sorriso lindo (o mais lindo do mundo) e o mais importante: ganhei um anjo protetor que vai estar sempre vivo no meu coração. Espalhou amor por onde passou, uniu ainda mais a nossa família, serviu de exemplo de força, superação e respeito à vida”, relata Rodrigo.

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E agora Deus envia à família mais um menino. Daniel nasceu sem conhecer o irmão mais velho, mas vai perceber a presença dele em cada beijo dos pais, cada carinho trocado, em todo o amor que virá junto com proteção, orgulho e tudo com muita intensidade. Todos os ensinamentos que Davi Lucas deixaram ficarão para sempre. E, para seus pais, o maior deles é que a medida do amor é amar sem limites, é amar sem medida.

E quando eu conversei com Patrícia e pedi para ela me contar todos os detalhes dessa emocionante história, ela fez questão de deixar uma mensagem ao final. Uma mensagem que serve para todos nós:

“Porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os caminhos de Deus mais altos do que os nossos caminhos, e os pensamentos de Deus mais altos do que nossos pensamentos” (Isaías 55:9)

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