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  • * Todas as imagens do texto são do arquivo particular de Bruno Tavares

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Por Alexandre Fontes da Fonseca (1)

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¹Alexandre Fontes da Fonseca é Professor de Física da Universidade Estadual de Campinas/SP (Unicamp). Espírita desde criança, iniciou suas atividades doutrinárias a partir dos cursos do Centro Espírita “Allan Kardec” de Campinas/SP, no qual atua como colaborador. É membro da Liga de Pesquisadores Espíritas (LIHPE), fundador do Jornal de Estudos Espíritas e articulista da revista Fidelidade Espírita de Campinas/SP.

 

Apometria é uma técnica de desdobramento, desenvolvida na década de 70 pelo Dr. José Lacerda de Azevedo, com o objetivo de auxiliar encarnados e desencarnados em problemas físicos ou espirituais [1,2]. Uma vez em desdobramento, o Espírito do médium atua observando o enfermo ou alguns Espíritos desencarnados; executa comandos de ação do dirigente ou doutrinador; e descreve o que acontece no plano espiritual. Essas técnicas se baseiam em processos de contagem em que energias do corpo físico ou do espaço vazio se aglutinariam para realização de ações sobre os desencarnados como, por exemplo, a contenção de Espíritos obsessores [1,2]

A Apometria é apresentada como uma teoria de caráter científico avançado, por ser baseada em conceitos da Física na formulação de suas leis e equações. Por essa razão, ela se apresenta como uma técnica científica inovadora e de consequências mais eficazes que o Espiritismo [1].

Diversos confrades espíritas já falaram [3] e escreveram [4-7] sobre os desacordos entre a Doutrina Espírita e as propostas da Apometria. A seguir, enumeramos ao leitor algumas das principais diferenças entre conceitos e práticas genuinamente espíritas e os da Apometria:

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a) Conceitos esotéricos: a Apometria adota sem demonstração conceitos comuns das diversas teorias esotéricas como, por exemplo, o conceito de vários corpos (astral, mental, etc.) incluindo o conceito místico do número 7. O Espiritismo adota terminologia a mais simples possível, de acordo com os fenômenos que podem sustentá-la, como se faz em toda disciplina científica e filosófica. Ele ensina que temos apenas um corpo espiritual, o perispírito, que sobrevive à morte do corpo físico e com o qual nos apresentamos perante outros Espíritos ou encarnados. A existência do perispírito é demonstrada através dos fenômenos de aparições e é responsável, dentre outras coisas, pela constata- ção da individualidade do Espírito desencarnado. Nas palavras de Kardec (ítem 17 do cap. XI de A Gênese [8]): “Esse envoltório, denominado perispírito, faz de um ser abstrato, do Espírito, um ser concreto, definido, apreensível pelo pensamento. Torna-o apto a atuar sobre a matéria tangível, conforme se dá com todos os fluidos imponderáveis, que são, como se sabe, os mais poderosos motores.”

b) Técnicas baseadas em práticas materiais: a Apometria adota a utilização de processos de contagem para direcionar energias e agir sobre os desencarnados, incluindo a geração de ruídos através, por exemplo, de estalos nos dedos. O Espiritismo ensina que o pensamento e a vontade são as forças que agem sobre os fluidos espirituais (cap. XIV de A Gênese [8]). Logo, segundo o Espiritismo, não são gestos nem rituais de natureza material que terão maior ou menor efeito sobre os Espíritos desencarnados. Ver também o cap. VIII da 2ª parte de O Livro dos Médiuns [9], intitulado “Do laboratório do mundo invisível”. 

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c) O trato com sofredores encarnados: a Apometria propõe levar ao desdobramento os enfermos encarnados para serem tratados no plano espiritual (seção 4 do capítulo Apometria – I. Generalidades da obra da Ref. [1]). O Espiritismo não recomenda forçar o desdobramento nem outro tipo de transe mediúnico nas pessoas que não possuem mediunidade (ver ítem 208 do cap. XVII de O Livro dos Médiuns [9]). Como o propósito maior do Espiritismo é a regeneração da humanidade através da transformação moral de cada um (ver artigo de Kardec na Revista Espírita de Agosto de 1865 [10]), a orientação do Espiritismo para os enfermos do corpo e da alma é assistirem preleções de natureza evangélica e moral, tomar passes, e se esforçarem por sua transformação moral. André Luiz, no cap. 23 de Desobsessão [11], sobre a presença de enfermos na reunião mediúnica, assim se expressa: “… o doente e os acompanhantes podem ser admitidos por momentos rápidos, na fase preparatória dos serviços programados, recebendo passes e orientação para que se dirijam a órgãos de assistência ou doutrinação competentes … Findo o socorro breve, retirar-se-ão do recinto.” Como se vê, os bons Espíritos não recomendam a presença e o tratamento de enfermos dentro do recinto onde ocorrerá a reunião mediúnica. É digno de nota lembrar que durante o sono do corpo físico, o Espírito do encarnado pode se afastar do seu corpo físico e receber no plano espiritual a assistência espiritual de acordo com o merecimento e necessidade. Porém, isso não substitui a importância do esforço individual na sua transformação moral. 

d) O trato com Espíritos obsessores: a Apometria propõe a contenção da liberdade de ação de Espíritos obsessores através da utilização de técnicas que, segundo sua teoria, seriam capazes de prender, tolher, afastar, mover para locais ou dimensões distantes e até mesmo apagar a memória desses Espíritos [1]. A Apometria deixa claro que suas técnicas seriam mais eficientes do que o diálogo esclarecedor com esses Espíritos. O Espiritismo ensina que não é possível prender os Espíritos desencarnados, e que nenhum tipo de fórmula ou ritual é capaz de intimidá-los. Em resposta à questão 553 de O Livro dos Espíritos [12], os bons Espíritos dizem que “Não há palavra sacramental nenhuma, nenhum sinal cabalístico, nem talismã, que tenha qualquer ação sobre os Espíritos, porquanto estes só são atraídos pelo pensamento e não pelas coisas materiais.” Nessa resposta, os bons Espíritos deixam claro que não há técnica alguma baseada em conceitos materiais (como os conceitos da Física empregados na teoria da Apometria) que garantam a eficácia de qualquer tipo de ação sobre os Espíritos. 

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Kardec, em observação feita após o ítem 84 do cap. XVIII de O Evangelho Segundo o Espiritismo [13], reafirma: “Qualquer que seja, porém, o caráter do Espírito, nada se obtém, é isto um fato incontestável pelo constrangimento ou pela ameaça. Toda influência reside no ascendente moral. Outra verdade igualmente comprovada pela experiência, tanto quanto pela lógica, é a completa ineficácia dos exorcismos, fórmulas, palavras sacramentais, amuletos, talismãs, práticas exteriores, ou quaisquer sinais materiais.” Sobre a ação de uma terceira pessoa para ajudar um obsidiado, os bons Espíritos afirmam, em resposta à questão 476 de O Livro dos Espíritos [12], que “… quanto mais digna for a pessoa, tanto maior poder terá sobre os Espíritos imperfeitos, para afastá-los, e sobre os bons, para os atrair. (…) Qualquer, porém, que seja o caso, aquele que não tiver puro o coração nenhuma influência exercerá. Os bons Espíritos não lhe atendem ao chamado e os maus não o temem.”

A recomendação do Espiritismo para a tarefa de esclarecimento de Espíritos obsessores está sintetizada nos seguintes comentários feitos por Kardec no ítem 81 do cap. XXVIII de O Evangelho Segundo o Espiritismo [13]: “… necessário, sobretudo, é que se atue sobre o ser inteligente, ao qual importa se possa falar com autoridade, que só existe onde há superioridade moral. Quanto maior for esta, tanto maior será igualmente a autoridade. E não é tudo: para garantir-se a libertação, cumpre induzir o Espírito perverso a renunciar aos seus maus desígnios; fazer que nele despontem o arrependimento e o desejo do bem, por meio de instruções habilmente ministradas, em evocações particulares, objetivando a sua educação moral. Pode-se então lograr a dupla satisfação, de libertar um encarnado e de converter um Espírito imperfeito.” Como se vê, o trato com Espíritos obsessores, segundo o Espiritismo, se baseia no conhecimento espírita e na transformação moral de cada um de nós, o que está em perfeita sintonia com os ensinamentos de Jesus. 

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e) Dependência da Ciência: A Apometria baseia seus princípios e práticas em conceitos extrapolados da Física. Portanto, suas bases estão assentadas na forma como esses conceitos da Física foram utilizados. Se a forma de se usá-los estiver errada toda a teoria da Apometria se desmorona, assim como no comentário de Jesus sobre o homem insensato que construiu sua casa sobre a areia (Mateus 7:26). O Espiritismo não baseia a definição de seus princípios e conceitos nos de outras Ciências. O Espiritismo apoia-se na Ciência no tocante a questões de natureza material, mas não é usada na formulação dos conceitos espíritas. Como disse Kardec (ítem 16 do cap. I de A Gênese [8]) “O Espiritismo e a Ciência se completam reciprocamente; a Ciência, sem o Espiritismo, se acha na impossibilidade de explicar certos fenômenos só pelas leis da matéria; ao Espiritismo, sem a Ciência, faltariam apoio e comprovação.”

Mesmo sabendo que a proposta da Apometria não está de acordo com o Espiritismo conforme enumerado acima e estudos prévios (ver, por exemplo, as referências [3- 7]), diversos agrupamentos espíritas tem acatado e adotado a Apometria como atividade de desobsessão e tratamento espiritual. Isso ocorre porque seus defensores alegam que ela seria um avanço científico que deveria ser aceito de acordo com as palavras de Kardec quando diz (ítem 55 do cap. I de A Gênese [8]) que o Espiritismo tem caráter progressista e, portanto, “assimilará sempre todas as doutrinas progressivas, de qualquer ordem que sejam…” . 

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O que fazer, então? Se realmente a Apometria for um avanço científico no mais puro sentido do termo, talvez devamos rever os conceitos espíritas. Mas e se ela não for um avanço científico? Como podemos verificar?

Se notarmos bem a citação acima de Kardec, em A Gênese, perceberemos que após dizer que o Espiritismo “assimilará sempre todas as doutrinas progressivas, de qualquer ordem que sejam…”, ele diz “ … desde que hajam assumido o estado de verdades práticas e abandonado o domínio da utopia, sem o que ele se suicidaria.” Será que a Apometria assumiu o estado de uma verdade prática? Ou ainda está no domínio da utopia?

Nos artigos a seguir, analisaremos cientificamente a teoria da Apometria. Essa análise será feita da mesma forma como novas teorias nas áreas de Física e Matemática são analisadas. Os ítens a serem analisados são: i) a coerência entre os conceitos nas áreas da Apometria e os da Física e da Matemática; ii) a existência de contradições entre conceitos próprios da Apometria; e iii) verificação da existência de respaldo experimental. Veremos, dessa forma, que na verdade a teoria da Apometria não constitue um avanço científico e, portanto, não tem mérito para propor alterações ou se inserir nos conceitos e práticas espíritas. Após essa análise e para complemento deste estudo, apresentaremos um guia de orientação segura e com base no próprio Espiritismo sobre como proceder perante novidades que surjam no movimento espírita, mesmo aquelas que se apresentem como avanços científicos ou acadêmicos, quando não temos conhecimento científico suficiente para avaliá-las.

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Referências:

[1] J. L. de Azevedo, Espírito / Matéria – Novos Horizontes Para A Medicina, 7ª edição, VEC Gráfica e Editora Ltda, Porto Alegre (2002). [2] J. L. de Azevedo, Energia e Espírito, 2ª edição, Comunicação Impressa, Porto Alegre (1995). [3] D. P. Franco, entrevista ao programa Presença Espírita da Rádio Boa Nova, de Guarulhos (SP), em Agosto/2001. [4] J. R. Teixeira, entrevista ao periódico O Consolador em 5 de Junho de 2011. [5] J. Hessen, “A apometria e as práticas espíritas”, O Consolador 67 (3 de Agosto de 2008) [6] A. O. de Oliveira Filho, “Apometria não é Espiritismo”, O Consolador 130 (25 de Outubro de 2009). [7] G. J. de Sousa, “Apometria não convém às Casas Espíritas”, O Consolador 139 (3 de Janeiro de 2010). [8] A. Kardec, A Gênese, Editora FEB, 36ª Edição, Rio de Janeiro (1995). [9] A. Kardec, O Livro dos Médiuns, Editora FEB, 1ª Edição, Rio de Janeiro (2008). [10] A. Kardec, “O Que Ensina o Espiritismo”, Revista Espírita Jornal de Estudos Psicológicos Agosto p. 219 (1865), reproduzido pela Editora Edicel, Sobradinho – DF. [11] A. Luiz, Psicografia de F. C. Xavier, Desobsessão, Editora FEB, 13ª Edição, Rio de Janeiro (1992). [12] A. Kardec, O Livro dos Espí- ritos, Editora FEB, 76ª Edição, Rio de Janeiro (1995). [13] A. Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, Editora FEB, 112ª Edição, Rio de Janeiro (1996).

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brunooyellowMeus queridos amigos e irmãos, eis aí um artigo necessaríssimo da querida revista “Fidelidade Espírita”, de Campinas-SP, cujo editor é o querido escritor e médium Emanuel Cristiano. O Movimento Espírita precisa acordar de maneiras “Très Urgent”, com urgência urgentíssima, para essas falsas práticas e doutrinas que abundam hoje em muitas casas espíritas, semeando a confusão doutrinária e, o pior, deturpando completamente a prática espírita.

Que Jesus abençoe as sentinelas firmes como essa, revistas e publicações, que abrem os olhos principalmente dos adeptos mais novos, que são toda uma leva que chega com a santa fome do verdadeiro alimento espírita!

Bruno Tavares

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