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Senhores da mesa, senhores delegados:
Antes de nenhuma outra coisa, seja-me permitido manifestar a minha gratidão a Deus, por ter criado este espaço infinito, cheio de sóis, de mundos, de satélites, de cometas e de maravilhas sem fim, que com a sua ordem, harmonia e previsão, constituem a expressão mais viva do grande poder do seu Criador e a admiração de todos os seres pensadores que povoam o Universo. Seja-me permitido manifestar a Ele a minha gratidão por esse eu que sinto dentro de mim mesmo, certo de que deverá progredir eternamente e encontrar novas manhãs, novos dias, novos espaços, novas famílias, novos progressos e novas virtudes, e que, seguindo pelo caminho do infinito, aprimorará todas as faculdades, até chegar a um grau elevadíssimo de perfeição; seja-me permitido ainda admirar esse poder divino, poder que vejo manifestado no ato que estamos realizando. Ah, senhores delegados! Há muitos anos, quando saudastes a revelação e pronunciastes a palavra Espiritismo, o mundo vos recebeu com uma gargalhada; e vendo que não conseguia vos derrubar, quando voltastes a pronunciar a palavra Espiritismo, então vos lançaram ao ridículo e ao escárnio; e vendo que persistíeis, levantou-se contra vós uma perseguição moral, que vos divorciou da sociedade e da família, até o ponto de vos tachar de loucos. Mas a opinião geral, tão poderosa quando trata de quebrar grilhões e estabelecer princípios de liberdade; quando se opõe à lei do progresso, quando se opõe à palavra de Deus, primeiro se agita, mais tarde cala-se, e por último, deixa-se convencer, e aquilo que ao princípio fora uma grande loucura, é então uma suprema verdade que vem a todos regenerar. (Ruidosos aplausos).
Cumpri um dever de gratidão ao meu Deus, ao meu Pai, ao meu Tudo, agora devo cumprir com outro dever de gratidão aos meus irmãos. Estou vendo, Sres. delegados, ao redor, insignes notabilidades do Espiritismo; estou vendo os filhos da França, representados pela pessoa ilustradíssima de Mr. Leymarie; eu o saúdo, e a todos os seus correligionários; saúdo os filhos da pátria de Vítor Hugo, de Thiers e de Gambetta, aos filhos dessa pátria, que depois de ter sofrido grandes catástrofes e grandes evoluções, içaram a sua liberdade ao pedestal das liberdades européias e hoje são a esperança de todos os oprimidos do velho mundo. (Muito bem. Aplausos). Saúdo os filhos da pátria de Bellini, os filhos dessa terra que tem enchido o mundo com a sua arte e a sua harmonia; os filhos dessa pátria que sofreram tantos séculos sob o poder teocrático, e que viram a liberdade justiçada pela sentença deTonetti, porém mais tarde souberam realizar a sua unidade, e como símbolo do livre-pensamento, erigiram a estátua de Giordano Bruno diante do mesmo Capitólio. (Estrepitosos aplausos).

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Saúdo e admiro ainda mais os filhos de além dos mares, a estes insignes apóstolos da abnegação e do sacrifício, a esses homens que, em ouvindo o clarim com o qual eram chamados pelos espíritas espanhóis, sem temor aos perigos da viagem, apressaram-se a chegar pelo caminho traçado por Colombo. Posso garantir que este sacrifício ficará gravado na eterna memória de Deus e que servirá a eles de grande consolação na hora suprema da sua transformação. (Aplausos). Já cumpri outro dever; agora devo cumprir a obrigação que eu mesmo me impus, obrigação superior às minhas forças, como é a de desenvolver ante vós o tema: Tendências do Espiritismo na sua parte moral. Ah, meus senhores! Se eu pudesse conceber e desenvolver ante vós as impressões e alegrias que tomam conta do espírito desde quando se arrepende até conceber a realidade de uma vida melhor; se eu conseguisse fazer-vos compreender a esperança e o gozo que sente o espírito quando, convencido da sua imortalidade, penetra na ciência psicológica e vê desenrolar-se ante si essa sucessão de mundos e de maravilhas que deve percorrer o espírito na sua progressiva elevação; se eu me considerasse digno, pediria aos espíritos puros do espaço que iluminassem o meu entendimento; se eu me considerasse digno, pediria ao espírito que sofreu no Calvário que por um momento iluminasse a minha razão, como iluminou os mártires do cristianismo; porém não me atreverei porque não sou merecedor de tal distinção; somente confio na lei do amor, que rege no espaço, e na vossa benevolência, que não me negareis, porque já sabeis que em mim não fala o talento, não fala a sabedoria; fala a convicção, fala o amor. (Muito bem).
¿Qual é a tendência do Espiritismo? Ah, meus senhores!… É levantar o abatido, é fazer crer àquele que duvida, é levar à alma as maiores consolações e as mais supremas esperanças; é transformar vícios em virtudes, egoísmo em caridade, desespero em tranquilidade, é levar à humanidade a mais ampla tolerância, para fusionar todas as escolas e todas as religiões sob os grandes princípios da existência de Deus, a imortalidade da alma, o progresso infinito e a reencarnação. (Aplausos)
A existência de Deus e a imortalidade da alma foram princípios fundamentais de todas as religiões; sobre esses dois pontos assentaram os seus dogmas, a sua teologia e o seu poder; porém, (causa desgosto dizê-lo!) depois de tantos séculos de domínio teocrático, a humanidade é mais descrente que nunca, e sabem por quê? Porque as religiões sempre impuseram, nunca demonstraram; por essa razão, a fé cega perdeu-se e só ficou a fé especulativa.
O Espiritismo não vem para impor esses dois princípios, mas sim para demonstrá-los. E sabem como o Espiritismo demonstra a existência de Deus e a imortalidade da alma? Através da comunicação daqueles que viveram na Terra. Mas ah, meus senhores! Esta comunicação que tem nos dado tantas consolações, esta comunicação, que tem nos revelado tantas verdades, esta comunicação que tem nos explicado aquilo que até agora era somente mistério, esta comunicação que tem sido e ainda é testemunha da existência dos nossos pais, dos nossos filhos e de todos aqueles que desapareceram da Terra, esta comunicação foi recebida, no século XIX, do mesmo modo como foram recebidos em outra época os cálculos de Colombo, os trabalhos de Gutenberg, as descobertas de Galileu e as deduções de Newton. E sabem por quê? Porque a comunicação disse-nos que Sócrates, Platão, Aristóteles e Plutarco estão vivos; porque ela nos disse que todas aquelas raças que lutaram impulsionadas pela barbárie e a cobiça ficaram sujeitas à lei de perfeição e progresso infinito; porque ela nos disse que mesmo Cleópatra e os Césares daquela época sobreviveram àquelas catástrofes; porque ela nos disse que todos os heróis, todos os mártires, todos os grandes, como também todos os criminosos; que João Huss, Savonarola, Jerônimo de Praga, ressuscitaram das cinzas das fogueiras do Santo Ofício; ela nos disse que Guilherme Tell, Riego, Padilla e todos os mártires da liberdade estão vivos; que Franklin, Copérnico e todos os mártires da ciência estão vivos; como estão vivos também Joana d’Arc, Washington, Lincoln, Mazini, Gambetta, Vítor Hugo, Garibaldi, Prim, e todos aqueles que continuaram nesse grande curso das humanidades sucessivas, que existiram da Terra e em todos os mundos. (Estrepitosos aplausos). E a humanidade diz que não se comunicam aqueles que viveram antes de nós, e acredita que estas comunicações são ilusão da nossa imaginação exaltada, acredita que são fanatismos da nossa escola, quando tantos milhões de espíritas são contados na Terra. Ah, meus senhores! É preciso assumir que aquilo que a humanidade acredita ser loucura é uma verdade bem sublime, ou então que uma grande parte da humanidade está realmente louca. (Aplausos).

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Eu considero, porém, senhores, que o modo de raciocinar dos espíritas não é, nem a loucura, nem o fanatismo, nem a ilusão; acho que nem a loucura, nem o fanatismo, nem a ilusão poderiam trazer uma nova moral, uma nova revelação, uma nova ciência; por isso afirmo que a comunicação dos espíritos que vivem no espaço com aqueles que vivemos na Terra, é uma verdade apenas demonstrada pelo Espiritismo; e posso afirmar isso diante dos senhores catedráticos que me ouvem, posso afirmá-lo diante dos ilustradíssimos doutores, afirmo-o diante dos distintos médicos presentes neste Congresso; e tenho certeza de que nenhum deles vai me desmentir ou negar as minhas afirmações.
Como poderiam negá-las! O que eles eram, o que eu era e o que são todos aqueles que apenas esperam na matéria bruta? O que eram antes de conhecer a comunicação? Um conjunto de matéria sujeita ao acaso, que no momento parecia que podia elevá-los ao sublime, porém logo os afundava no abismo, acaso que não podiam explicar, e circunstâncias que não podiam definir. O que era o amor das suas esposas? O que era o amor dos seus filhos? O que significavam todos os esforços, todos os sacrifícios, todos os trabalhos feitos por aqueles que nos precederam no curso da vida? O que significa a caridade praticada por Vicente de Paul, a oração de Teresa de Ávila? O que significavam aquelas lágrimas derramadas na Via Dolorosa, unidas àquelas sublimes palavras: Pai! Perdoa-os porque não sabem o que fazem! O que significava aquele sangue escorregando pela cruz, unida com as lágrimas da mãe do mártir do Calvário? O que significavam aqueles sacrifícios daquelas mulheres que foram arrastadas pelas ruas de Roma? O que significavam os sacrifícios daqueles mártires imolados nos circos, nas fogueiras e sob a espada do carrasco? O que significava a inspiração de Demóstenes, de Cícero e de Paulo apóstolo? O que significava a arte de Murillo, de Rafael e de Michelangelo? O que significavam as harmonias de Mercadante, de Rossini, de Donizetti? O que significava o gênio de Cervantes, de Lamartine, de Vítor Hugo? Se tudo devia perder-se, se tudo devia aniquilar-se, se a mesma recompensa aguardava o mártir e o criminoso, tudo teria sido uma fatal tragédia, cuja vítima seria a humanidade inteira. (Estrepitosos aplausos).
Porém vós já sabeis senhores delegados, vós já sabeis que não existe virtude sem recompensa, nem vício sem repreensão; vós já sabeis que a imortalidade está provada e que a comunicação com os seres que nos precederam é um fato prático; vós sabeis que a comunicação é altamente moralizadora, e que é testemunho indiscutível de todas as verdades da revelação espírita; por isso todos os sacrifícios, como todos os heróis, como todos os mártires, obedeceram a uma lei de progresso e aprimoramento, necessária para o desenvolvimento da humanidade. E fico feliz de poder afirmar isto diante dos sábios reunidos nesta assembléia; feliz de poder afirmá-lo diante dos senhores catedráticos, dos doutores e médicos, que é para ninguém dizer que no Espiritismo só militam pessoas ignorantes, a quem se engana com facilidade, mas sim que somos espíritas com conhecimento de causa e que afirmamos não somente pela revelação, mas pela ciência; e afirmo-vos, senhores, que se no século XIX um grande filósofo se levantasse para reformar o mundo, mas não tivesse comprovado a sua filosofia com fatos extraordinários, teria morrido quase no momento de nascer.
Disse que queria demonstrar as tendências do Espiritismo na sua parte moral: permiti-me, então, que vos fale de casos práticos; permiti-me que me ocupe um pouco de mim mesmo e vos explique dois lances em minha vida, terríveis, aliás, porém passados de modo diverso.
Faz 22 anos eu vivia em plena lua de mel; tudo sorria ao meu redor; a mulher que escolhi para companheira de minha vida, não era para mim uma mulher, era um anjo. A vida deslizava feliz e nunca pensei que aquela felicidade poderia ser interrompida.
Mas ah, meus senhores! a mulher que eu tanto amava foi atacada por uma terrível doença; toda aquela felicidade desapareceu em um só momento; nunca acreditei que pudesse perdê-la para sempre, mas a doença adquiriu proporções alarmantes; chamei a ciência, chamei a todos aqueles que poderiam salvá-la, mas foi tudo inútil; aquele olhar tão expressivo ficou lânguido, indeciso; aqueles lábios tão rosados ficaram descoloridos; aquele corpo tão grácil ficou rígido, o coração deixou de bater, e todas as minhas esperanças, toda a minha felicidade, todo o meu amor, transformaram-se em um cadáver.
Ah, senhores! O meu desespero foi grande; amaldiçoei a minha existência, amaldiçoei tudo o que me cercava; e para que ninguém visse o meu desespero, fugi para a roça, e ali chorei e chorei amargamente. Tudo estava morto para mim! Enquanto eu chorava e me desesperava, as aves cantavam; então virei para elas e disse: Por que cantais? Não sabeis que perdi toda a minha esperança e todo o meu amor? Não sabeis que eu tenho um deserto no coração e que viverei morrendo? Vossos cantos são uma zombaria. E tu, rouxinol, por que trinas? Não sabes que até o ninho que acaricias é uma pura ficção? E vós, vales que pareceis túmulos que sepultarão a humanidade; e tu, sol que me abrasas, que iluminas tanta tragédia, por que não acabas de uma vez com tantos males? Então uma horrorosa tempestade desencadeou-se no espaço, e vendo o fulgor do raio e escutando o barulho do trovão, achei que aquilo era justo, era o que devia ser. (Muito bem, muito bem).
Passei longo tempo cercado das mais funestas lembranças e pressentimentos, que se esvaíram depois da minha conversão ao Espiritismo, conversão que não detalharei diante de vós, senhores delegados, porque todos vós sabeis o que se sente, o que se passa; somente vos direi que faz seis anos que, das minhas segundas núpcias, tinha eu um filho de nove anos, formosíssimo, porque para os pais, todos os filhos são formosos: muitas vezes me acariciava e me beijava com um carinho especial, dizendo: Pai, quando tu ficares velho, eu também te darei a comida e te levarei para passear como tu fazes agora comigo. Deixo à vossa consideração pensar o que podia sentir a minha alma. Mas ah, senhores delegados! Uma terrível enfermidade apoderou-se também do meu filho; aquele corpo, tão vivo e tão gracioso ficou prostrado; aquele olhar cheio de viva expressão tornou-se lânguido, indeciso; então fui buscar o recurso das verdades espíritas; então lembrei-me de que o meu filho não morreria, só renasceria; e enquanto o meu filho exalava o último suspiro, eu contemplava a segurança da sua nova vida, do seu novo progresso. Então falei àqueles que me cercavam: no relógio da Terra soa a última hora da existência de um corpo, porém soa a primeira hora, no relógio do espaço, da existência de um espírito. Meu filho não morre, transforma-se; em breve brilhará no mundo dos espíritos. Vamos respeitar os desígnios de Deus. (Aplausos).

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Então, um desejo agitou o meu ser. Que posição vai ocupar o meu filho no mundo espiritual? Terá de sofrer por alguma falta cometida em anteriores existências? Mas não; dizia para mim mesmo, teu filho era bom, teu filho sentia um grande amor pelos pobres, porque sempre era o primeiro a pensar neles; então, pedi a Deus que me permitisse saber o estado do meu filho; então pedi ao meu filho para me dar uma prova do seu estado; mas queria uma prova extraordinária, para não haver substituição de espírito. Esta não se fez esperar; em uma das nossas costumeiras sessões aos domingos, o espírito do meu filho comunicou-se, e o fez de um modo tão especial, deu tantas provas, que a família o reconheceu muito antes dele dizer seu nome. Aquele espírito voltava a me chamar de pai, aquele espírito tornava a me oferecer proteção, aquele espírito dava-me novas provas de um amor bem grande, bem puro; aquele espírito decifrava-me as belezas da Criação, as belezas da natureza de um modo como nunca antes as tinha sentido; sua posição era tranqüila, elevada, cheia de paz e de alegria. Ah, senhores delegados! Descrever-vos a alegria, a imensa alegria que se apossou de mim, seria tarefa impossível. Então teria dito a todas as mães que perderam seus filhos: não choreis; vossos filhos não morreram, vivem com a vida do infinito; então teria dito a todos os filhos que perderam os pais: não choreis, porque vossos pais vivem e vivem na vida eterna. Minha casa era estreita para conter a minha alegria; precisava dar graças a Deus em meio à imensidão; por isso fui para o campo; ali elevei a minha prece ao Grande Criador, ali manifestei a minha gratidão ao Pai de todo o Universo, e enquanto meu espírito exalava aquele arranque de gratidão imensa, as aves cantavam, e escutando-as, lembrei que em outra ocasião as recriminara; então, disse-lhes: cantai aves minhas, cantai; vossos cantos são uma eterna harmonia que se une à beleza da Criação; trinai rouxinóis, trinai; o ninho que acariciais não é mais uma ficção, e sim uma manifestação da vida infinita em suas múltiplas transformações: e vós, vales que em outros tempos afiguravam-se túmulos que deviam sepultar a humanidade, agora estou vendo que sois moradas onde se desenvolve a vida de multidão de seres, onde crescem se agitam e evoluem; e tu, Sol que iluminas um sistema de mundos e que és testemunha da grande potência de Deus, eu te abençôo; e enquanto estava entregue à minha alegria e à contemplação da Criação, vi ao longe que o arco-íris acabava de extinguir as suas belíssimas cores. Era o arco-íris que saíra logo após aquela terrível tempestade! (Estrepitosos aplausos).
E, poderão acreditar os senhores delegados, que essa comunicação dos pais com os filhos e dos filhos como os pais, não vai chegar a todas as camadas sociais? Podem acreditar senhores delegados, que a humanidade resistirá sempre à investigação dessas relações espirituais que oferecem tanta consolação? Ah, meus senhores! A comunicação dos espíritos chegará até os poderosos da Terra e lhes dirá: É verdade que em vossas mãos está o poder, porém ai de vós se fostes carrascos, em vez de protetores! Ai de vós se fizestes derramar sangue!
No dia da vossa transformação, naquela hora suprema, encontrar-vos-eis baixo o poder daqueles que hoje oprimis, e o mesmo sangue que derramastes, rodear-vos-á, e não encontrareis lugar no espaço para ocultar o vosso horror e a vossa vergonha.
Porém, se sois o que se deve ser, se considerais que acima de vós está o Autor da lei, e amais e protegeis e tratais como deveis os vossos súditos, sereis grandes na Terra e no espaço, e quando a hora suprema da vossa transformação chegar, vossos agradecidos vos aclamarão, e a admiração e o gozo transbordarão na vossa consciência.
A comunicação chegará até a dama aristocrática e lhe demonstrará que não somente deve enfeitar seu corpo, mas também deve enfeitar seu espírito; demonstrar-lhe-á que o ser que só pensa em si mesmo é o mais pobre no reino de Deus.
A comunicação dirá aos ricos: é verdade que vos tendes o poder do ouro, mas, ai de vós se não buscais ser úteis aos outros! Ai de vós, se vos esqueceis daquele grande mandamento: amarás teu próximo! Ai de vós, se tudo quiserdes para vós mesmos; estareis aprisionados com as mesmas correntes que forjastes! Porque quando a hora da vossa transformação chegar, vosso espírito estará sozinho, sem uma voz amiga, sem uma palavra de alento, sem uma esperança, submerso no espaço infinito, talvez cercado pelas mais densas trevas. Porém, se o bem geral é o que vos inspira e não esquece a solidariedade e a proteção mútua, se buscais o alívio e o conforto para os outros, se as vossas empreitadas têm um fim útil ao progresso humano; então a gratidão será o patrimônio que encontrareis no mundo espiritual, e vosso espírito ver-se-á aclamado e cercado por espíritos amigos, e maravilhas de luz sem limites serão as vossas moradas, e então compreendereis quanto bem fizestes ao vosso espírito, praticando na Terra a lei da justiça e do amor. (Aplausos).
A comunicação chegará aos oprimidos e àqueles que sofrem, e lhes fará grandes promessas e lhes abrirá o caminho do conforto e da esperança; dir-lhes-á: bem-aventurados os que sofrem e os que têm fome e sede de justiça; demonstrar-lhes-á quanta liberdade alcançam no reino de Deus aqueles que foram oprimidos na Terra, e quanta angústia encontram aqueles que foram opressores; então a esperança e a resignação penetrarão no seu coração e sofrerão com calma os tormentos da vida.
O que vos digo senhores, é um fato prático; e para demonstrá-lo acrescentarei que eu, neste Congresso, tenho a honra de representar uma Sociedade Espírita que é constituída de 32 penados que estão sofrendo a sua condenação. (O orador toma de uma carta e dá leitura a ela).

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“Sr. D. Miguel Vives. Queridíssimo irmão:
Ficamos gratos pelas suas exortações e sentimos uma imensa alegria ao saber que vai acontecer o CONGRESSO INTERNACIONAL ESPÍRITA. Sentimos muito não poder tomar parte nele; mas já que não nos é possível, suplicamos a V.S. tenha a bondade de nos representar e dizer em pleno Congresso que estes 32 indivíduos que foram criminosos, hoje eles estão arrependidos, perdoam os inimigos e desejam voltar à vida livre, para demonstrar a mudança que o Espiritismo tem operado neles.
“Hoje só pensamos em nossa reforma moral e na reforma moral da humanidade.
“Trinta e dois penados vos cumprimentam e desejam para vós a proteção de Deus.” (Continua o orador).
Isto é o que dizem 32 homens que foram criminosos, 32 homens que tinham perdido a sensibilidade da consciência, 32 homens que odiavam a Sociedade, que abominavam dela, porque se consideravam sozinhos, completamente sós, porque pensavam ser detestados por todos, porque acreditavam ter perdido até as últimas considerações sociais. Pobres irmãos nossos! Eles também tiveram mãe que os acalantou no berço, que os amamentou, que tinha coberto com mil beijos as suas faces, naqueles arranques sublimes do amor de mãe… Porém depois de tantos anos de lutar com a vida, tinham caído na condição terrível, onde não só o peso da justiça faz sofrer, mas também o desprezo geral.
Porém a comunicação dos espíritos chegou a eles; ouviram nessa comunicação uma voz amorosa que vinha acordar neles esperanças perdidas; buscaram livros e jornais espíritas, estudaram, indagaram, e por último, convenceram-se da existência de um além, onde para ninguém estão fechadas as portas da evolução; que um criminoso pode chegar a constituir-se em ser perfeito através do arrependimento e da prática do bem; que o infinito é eterno, como a vida é eterna, como é eterno o espaço, e que a lei que rege e domina o Universo é o amor. (Muito bem, muito bem).
E isto ficou provado para eles pelo Espiritismo de um modo tal, que aqueles homens caíram prostrados diante da grandeza de Deus, diante da magnificência daquilo que aguarda por eles e diante da evolução e da vida eterna prometida pelo Espiritismo e demonstrada pela comunicação dos espíritos; e aqueles homens que tinham perdido tudo, encontram um infinito de grandezas, onde existe um Pai que sempre aguarda o filho pródigo, e uma grande família que ama todos os seus irmãos, que só é regida pela lei do amor. Sendo assim, aqueles homens que odiavam e detestavam tudo, hoje perdoam, amam e esperam, sofrem resignados sua condenação, e somente aguardam o instante de poder evidenciar diante da sociedade que, de criminosos transformaram-se em apóstolos, apóstolos da verdade, da moral e do amor. (Ruidosos aplausos).
Acredito ter provado diante de vós as tendências do Espiritismo na sua parte moral; porém, com a finalidade de dar-vos mais uma prova, acrescentarei que, se nestes momentos sobreviesse para mim o último instante de vida material, não vos daria um adeus de despedida, não vos daria um adeus eterno, e sim, depois de abraçara minha esposa e minha filha, daria um… Até logo.
Agora só me resta parabenizar a todos vós pelo bom êxito dos vossos trabalhos, e digo: Se um dia meus irmãos da Itália me chamarem, irei à Itália; se me chamarem da França, irei à França; se me chamarem de além os mares, lá irei; e penso que todos vós o faríeis, para dar mais uma prova, sobretudo, de que para os espíritas a pátria é o mundo e a família, a humanidade. – Tenho dito.
(Ruidosos e estrepitosos aplausos ecoam por longo espaço de tempo; muitos delegados e assistentes abraçam o orador).
O Presidente Mr. Leymarie (em francês). Por minha vez, parabenizo o Sr. Vives, orador inspirado que acabou de falar, que com justo motivo foi tão aplaudido, estando ainda sob a influência do encanto da sua palavra.
Agradeço ao Sr. Vives o carinhoso cumprimento para os delegados de todos os países presentes neste Congresso, e as benevolentes frases que dirigiu a mim, sendo eu somente um humilde servo da Causa; em todo caso, o aplaudido orador rendeu um tributo de homenagem aos apóstolos do livre exame, cujo espírito está impregnado de justiça, que amam a nossa doutrina benfazeja e desejam que ela seja científica, para não se desviar do caminho da livre investigação traçado pelo venerável mestre Allan Kardec.
Irmãos e irmãs, nós estamos de parabéns pelos avanços que o tempo tem realizado, lentos, porém contínuos. Na Idade Média, e aqui ainda não transcorreram mais do que uns trinta anos, o obscurantismo católico devido à ignorância, todas as manifestações do livre-pensamento; e não obstante, aqui estamos reunidos e podemos nos expressar diante de um público sério, sem restrições, diante de todas as maneiras de pensar, políticas, sociais ou religiosas. Isto representa bem o triunfo da idéia moderna; não é mesmo?
Lamento muito sinceramente não poder expressar as minhas idéias em espanhol, servindo-me dessa harmoniosa língua. Oxalá os mestres do saber nos eduquem no sucessivo fazendo-nos aprender muitas línguas ao mesmo tempo! A criança que fala corretamente muitos idiomas possui muitas existências simultâneas, porque vive com os gênios que honraram essas diversas línguas.
Não possuindo ainda essa faculdade de lingüista, e esperando que venha a se generalizar, abençoemos os inovadores, e amemos os nossos companheiros na Imprensa, esses amigos da verdade que nos reconhecem como pessoas de progresso e de estudo, e vão nos ajudar a espalhar as nossas idéias, tão práticas e de tanto alcance. Agradeçamos a eles a assiduidade na assistência a estas sessões, e a integridade e lealdade das suas resenhas.
Abençoemos Gutenberg, porque a sua invenção permite às nossas imprensas reproduzir o pensamento humano em todas as formas, para fazê-lo acessível a todas as inteligências.
Abençoemos Edison, o espírita e médium americano, eminente engenheiro que se utiliza da eletricidade para iluminar melhor as nossas residências e os nossos gabinetes de investigações científicas; que achou os meios de fazer eterna e sempre viva e vibrante a palavra humana tida como coisa fugidia.
Deste assento presidencial que o Congresso achou por bem confiar a mim, permiti-me oferecer o testemunho da minha profunda gratidão, e a dos senhores delegados, à bela Espanha, tão bem representada nesta assembléia, e especialmente à nobre e ilustre cidade de Barcelona. (Prolongados aplausos).
Amanhã, na nossa última sessão pública, outros oradores se ocuparão destes sérios assuntos, e convidamos a todos vós para esta festa do livre-pensamento espírita. Obrigado aos nossos convidados desta noite, que, ao nos honrarem com sua presença, ouviram-nos com tão respeitosa atenção, o qual não é freqüente quando existem milhares de ouvintes. Até amanhã, às oito e meia da noite.
Pelo avançado do horário, levantou-se a sessão às onze horas e meia.

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* AS IMAGENS SÃO ESCOLHA E RESPONSABILIDADE 
DE BRUNO TAVARES

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brunooyellow Meus queridos amigos e irmãos, eis aqui, no artigo de hoje, a extraordinária História do Espiritismo passada a limpo, num discurso épico e imortal do grande Apóstolo da Doutrina Espírita da terra de Cervantes: Miguel Y Augusto Vives Y Vives, que com seu verbo flamívolo, quente e carregado de convicção, aniquila a descrença de uma vez por todas, acendendo a pira da imortalidade com o archote da sua gigantesca e admirável fé espírita!

Que Jesus abençoe Miguel Vives Y Vives, por falar tão alto e ser ouvido pelas novas gerações que o leem agora, através deste modesto blog-sítio espiritista!

Que Jesus abençoe a todos nós!

Bruno Tavares

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A MENSAGEM DE HOJE NO BLOG

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QUADRO DO PINTOR PERNAMBUCANO

ANTÔNIO CARLOS CASTANHA TAUA GOMES

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