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2008, Universidade de Cambridge, Inglaterra. Eis a situação deste que vos escreve: em março daquele ano iniciei um intercâmbio para desenvolver projeto no Laboratório Cavendish sob orientação de Bryan Webber, herdeiro da cadeira de física do grande James Clerk Maxwell.

O Cavendish é sui generis. Logo no hall de entrada você se depara com o passado daquele laboratório, como os equipamentos originais que levaram à descoberta do elétron e da massa do mesmo, o primeiro modelo original em metal do DNA de Watson e Crick e a mesa de trabalho de Maxwell, entre outros itens. Vale a pena conhecer.

Logo ali, do outro lado da rua, há o Departamento de Matemática Aplicada e Física Teórica (DAMTP). Havia muito eu sonhava em ouvir as aulas e palestras dos grandes nomes que ali trabalhavam. Gibbons, Perry, Turok, Townsend e, sobretudo, Hawking, professor que se assentava na cadeira lucasiana de Isaac Newton. Isso mesmo, Stephen Hawking, a estrela do Departamento.

O que escrevo abaixo não contei a ninguém e só revelo agora por escrito, materializando aleatoriamente o que me vem à memória: o que vi e aprendi durante aquela inestimável visita a Cambridge.

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Inicio com a fase em que, a partir da segunda semana de trabalho, comecei a frequentar o chamado “Cosmology Luch”, às sextas-feiras no DAMTP. Um seminário científico regado a pizza, comida chinesa, sucos e outros quitutes calóricos. Cheguei cedo. Uma conhecida minha da Universidade de Upsalla, Suécia, seria a palestrante. Abri a porta da sala de seminários meio de supetão e lá estava ele! Eu, sozinho na sala de seminários, com ninguém menos que Stephen Hawking! Como alguém deixava o Hawking assim sozinho? Olhou-me com ares de “seja bem-vindo”; retribuí com um aceno e um tímido “hi, Professor”. Sentei-me num canto, sem saber o que fazer.

A sala não era tão grande, mas muito bonita, moderna e brilhante, repleta dos símbolos de seus patrocinadores, Apple e Intel. Não acreditava que estava lá, cara a cara com o ícone da ciência atual. Apenas fiquei quietinho. Pensei seriamente em me levantar, dizer em alto e bom som um “nice to meet you, Prof. Hawking”, mas nada saiu. Apenas silêncio e admiração.

A enfermeira do professor chegou e, aos poucos, outros adentraram a sala. Já tínhamos a comida, muita pizza por sinal, e em alguns minutos a palestrante começou o seu seminário sobre buracos negros e teoria de cordas. Senti-me no céu. Comíamos, ríamos, ouvíamos e perguntávamos curiosidades sobre a pesquisa da palestrante. Hawking, à frente da sala, prestava muita atenção, enquanto sua enfermeira lhe alimentava com colheradas de sopa.

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A partir daquele dia percebi que esbarrar com Hawking na universidade ou até mesmo na rua era praticamente trivial. A foto acima, de Hawking no DAMTP foi visão constante no quase um ano que passei naquela Universidade.

No mais, minha pesquisa se desenvolveu a contento e eu passava a semana esperando a sexta-feira para ir ao Cosmology Lunch. Acho que no segundo mês, estava mais acostumado ao grupo. Um dia, fiquei após o seminário com o Hawking e um professor português, muito conhecido em Portugal pelo seu trabalho no tema de buracos negros, o meu xará Carlos Herdeiro. Ficamos eu, ele e Hawking na frente da lousa conversando sobre buracos negros. Foi emocionante!

Logicamente Hawking não articulava muitas palavras. Todos bem sabem que ele tinha a tal síndrome lateral amiotrófica, que lhe custou muitos anos naquela cadeira de rodas, sem se mover, nem pernas, nem braços, nem nada. Apenas olhos e boca. Ele usava um sistema de leitura ocular que lhe permitia escolher palavras-chave e emiti-las num sistema com voz robótica. Nós íamos falando, ele dizia “yes”, “no”, “ I don’t understand” ou “I think you are wrong” ou “yes, you are right”. Emocionante! Não tenho outras palavras para descrever aquele momento.

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Por falar em buracos negros, foi por causa deles que escolhi a minha profissão de físico. Na verdade sou um engenheiro eletrônico que se rebelou e foi fazer mestrado e depois doutorado em temas da astrofísica que se tornaram minha preferência a partir das leituras de juventude. Só que quando jovem, nunca imaginei que entenderia algo sobre as equações por trás dos escritos do livro mais famoso de Hawking, “Uma Breve História do Tempo” ou “O Universo numa Casca de Nós”. Foi um caminho longo, mas a partir de certo momento comecei a entender e a degustar os seminários, os artigos e os livros sobre o tema como se fossem quitutes da alta gastronomia.

Os buracos negros de Hawking emitem radiação. A tal “radiação Hawking”. Emitem porque, em sua teoria, criam partículas e antipartículas no vácuo que os rodeia. A energia gravitacional de tais fósseis do universo primitivo consegue criar os tais pares. Uma das partículas cai no buraco negro e a outra escapa, formando um espectro de radiação de corpo negro. Não sou tão bom em explicar coisas, mas aí está a minha versão em poucas linhas sobre o assunto.

Além desse tema, Hawking é muito conhecido por sua tese de que o universo primordial funcionava como uma espécie de buraco negro. Ah sim, falei muito sobre essa palavra “buraco negro”, mas não expliquei tão bem. Buracos negros são como entidades físicas que têm tanta massa concentrada em um pequeno volume que seu campo gravitacional se torna muito forte e, ao longo de um limiar chamado “horizonte, captura tudo, até mesmo a luz. Como no universo primordial a massa e energia se concentravam num pequeno espaço, Hawking imaginou que isso permitiria descrever a física do big bang, em seus aspectos gravitacionais e termodinâmicos, a partir das equações de buracos negros. A partir daquele instante ele se tornou muito famoso por suas ideias ousadas.

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Naquele início, ele tinha uns vinte e poucos anos, sua doença fora recém-descoberta, os médicos lhe davam pouco tempo de vida. Depois a doença evoluiu e a perda de movimentos obrigou-o à cadeira de rodas e ao mutismo definitivo. O mutismo foi contornado pela tecnologia que lhe deu voz de robô. Antes ele usava uma das mãos para escolher as palavras. Depois, até mesmo esse movimento foi perdido e daí o novo sistema que usava o movimento de seus olhos, como antes descrevi.

Acredito que a admiração das pessoas pela história de superação e a sua grande obra de divulgação científica projetaram-lhe internacionalmente, tornando-o este grande ícone. Uma celebridade nas ciências é muito raro. Que eu lembre, no Brasil há talvez Marcelo Gleiser. Internacionalmente, contam-se nos dedos, os vivos Richard Dawkins, Neil DeGrasse Tyson, Lawrence Krauss e os já falecidos Carl Sagan, Albert Einstein e agora Stephen Hawking. Hawking apareceu no Discovery Channel, mas também na série de comédia “The Big Bang Theory” e no desenho animado “The Simpsons”. Não sei se é algo que os cientistas gostem muito, serem celebridade. Muitos deles como Sagan, apareciam na TV, eram reconhecidos por todos, mas prezavam sobretudo que sua missão de divulgação científica fosse bem cumprida. É o que afinal importa para o bom divulgador de ciências. Logicamente, há muitos egos inflados nesse meio, mas essa é outra história.

Neste último 14 de março, Hawking faleceu. Deixou um legado de cientista bravo. Bravo de bravura. Dos que não esmoressem. Mas sobretudo o legado do cientista que aproveitou sua projeção para divulgar corretamente grandes ideias científicas de sua área de atuação, gravitação e cosmologia.

Mas também foi alguém que se preocupou com os rumos da humanidade. Dizia que realmente estávamos destruindo o meio ambiente. E que nosso sistema de produção era de fato predatório.

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Para saber um pouco sobre as críticas de Hawking ao capitalismo veja o artigo que escrevi aqui no GGN intitulado

“Albert Einstein e Stephen Hawking: duas visões anticapitalistas”

Destaquei nesse artigo que um dos episódios que mais me marcaram naquela época em que eu estava em Cambridge, foi testemunhar a recusa de Hawking ao título de Sir, isto é, cavaleiro da Rainha da Inglaterra. É um dos títulos mais prestigiados que existem no mundo. Isso causou grande embaraço a Sua Majestade. A recusa foi acompanhada de uma sonora crítica às políticas internas e externas do Reino Unido. Críticas feitas principalmente às políticas de investimento em empreendimentos bélicos e à rendição ao lobby das corporações de armamentos. À época, aquele país estava profundamente imbuído com a guerra no Iraque. Além disso, Hawking também reivindicou maiores investimentos em educação, ciência e tecnologia e ameaçou abandonar o país em favor do Canadá, o que realmente quase ocorreu.

Muita gente pode perguntar: “por que Stephen Hawking nunca ganhou o prêmio Nobel?”. Uma das principais razões é que as principais teorias que poderiam lhe dar o prêmio ainda não conseguem ser testadas a contento no laboratório, embora estejam em vias de ser. A questão do paradoxo de como a informação pode transitar ou não em buracos negros foi amplamente discutida em artigos científicos por Hawking. Com a tecnologia das ondas gravitacionais, talvez tenhamos em breve um entendimento mais completo sobre isso. Em 2008, quando o grande acelerador de partículas Large Hadron Collider (LHC) foi ligado, havia uma possibilidade de que a teoria da “Radiação Hawking” provinda de miniburacos negros formados durante as colisões pudesse ser detectada. Isso automaticamente daria um Nobel a Hawking, além de demonstrar a chamada “teoria de dimensões extras”. Não foi o que aconteceu e até hoje, embora o acelerador tenha aumentado consideravelmente sua energia em relação a 10 anos atrás, ainda não houve sinais dos tais mini buracos negros ou da radiação Hawking.

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De qualquer forma, Hawking deixou um grande legado na divulgação de ciências. Muita gente hoje sabe quem ele é. Não só por ser “aquele cientista da cadeira de rodas”, mas por ser em vida um grande incentivador e executor de projetos de popularização das ciências. Até mesmo um livro infantil ele escreveu, “George e Segredo do Universo”.

Fico neste final com minha última lembrança desse gigante da ciência. Foi no cinema de Cambridge. Num sábado, assisti por acaso, lado a lado com Hawking, ao clássico de ficção científica da Pixar, “Wall-E”. Estávamos somente eu, ele, a enfermeira e mais uns quatro espectadores. “Wall-E” é aquela história do robô catador de lixo, num futuro não tão distante, que se transforma em herói do planeta Terra e da humanidade por salvar a única muda de árvore do mundo capaz de reflorestar o resto do planeta. Ao fim do filme, lembro claramente de ver um sorriso de emoção e satisfação estampado na face do cientista. O que me deixou realmente muito feliz e firme para continuar a labuta no seio de uma humanidade ainda tão distante dos grandes ideais progressistas.

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O astrofísico Carlos H. Coimbra (@carloscoimbra9 no twitter) é professor e pesquisador da Universidade Federal do Paraná nas áreas de astrofísica de buracos negros, ensino de física e popularização da ciência.
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brunooyellowMeus queridos amigos e irmãos, eis aqui um artigo extraordinário da lavra do meu querido amigo, o astrofísico espírita pernambucano Carlos Henrique Coimbra. Conheço Carlos desde a sua adolescência. Ele é filho da minha querida e amada amiga Diana Coimbra e sobrinho do meu preceptor espiritual amigo Estevão Coimbra.

Carlos nasceu espírita, por muito tempo foi orador contumaz em nossas tribunas e sempre notabalizou-se  pela sua inteligência brilhante e rara.

Carlos Henrique Coimbra, para todos terem ideia da sua honorabilidade, participou como cientista da eleição que rebaixou Plutão da categoria de planeta para a de planeta anão.  Aqui ele narra, de forma emocionante, o momento ímpar em seus estudos em Cambridge, onde encontrou, conviveu e conversou com o genial Stephen Hawking.

Que Jesus o abençoe meu querido Carlos Henrique, quantas saudades das nossas conversas adolescentes sobre teorias da conspiração, sem imaginar jamais os píncaros que alcançarias com tua inteligência privilegiada!

Que Jesus abençoe a todos nós!

Bruno Tavares

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AS IMAGENS E VÍDEOS SÃO ESCOLHA E
RESPONSABILIDADE DE BRUNO TAVARES

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QUADRO DO PINTOR PERNAMBUCANO 

ANTÔNIO CARLOS CASTANHA TAUA GOMES

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